sábado, 24 de abril de 2010

e.e.cummings



O poeta americano e.e.cummings (1894-1962 ) depois de estudar latim e grego em Harvard, dedicou sua vida à poesia. Conhecido pela sutileza da forma gráfica de seus poemas, teve nos concretistas Augusto e Haroldo de Campos seus tradutores e divulgadores. Considerado um dos poetas essenciais do paideuma literário junto com Mallarmé e Pound.
“Falecido aos 67 anos de idade, e. e. cummings pertence à estirpe dos inventores da poesia moderna, ao rol daqueles poucos que realmente transformaram a linguagem poética de nosso tempo, em sintonia com o prospecto de uma civilização cujos crescentes progressos científicos vão abolindo vertiginosamente as fronteira entre a realidade e a ficção. Abominado por críticos e poetas conservadores , cummings mereceu, em contrapartida, a admiração de escritores do porte de Marianne Moore, William Carlos William, John dos Passos e Ezra Pound”.

(Haroldo de Campos , publicado no livro "poem(a)s" . Editora Francisco Alves - 1998)

nalgum lugar em que eu nunca estive,alegremente além

de qualquer experiência,teus olhos têm o seu silêncio:

no teu gesto mais frágil há coisas que me encerram,

ou que eu não ouso tocar porque estão demasiado perto

teu mais ligeiro olhar facilmente me descerra

embora eu tenha me fechado como dedos,nalgum lugar

me abres sempre pétala por pétala como a Primavera

abre

(tocando sutilmente,misteriosamente)a sua primeira rosa

ou se quiseres me ver fechado,eu e

minha vida nos fecharemos belamente,de repente,

assim como o coração desta flor imagina

a neve cuidadosamente descendo em toda a parte;

nada que eu possa perceber neste universo iguala

o poder de tua imensa fragilidade:cuja textura

compele-me com a cor de seus continentes,

restituindo a morte e o sempre cada vez que respira

(não sei dizer o que há em ti que fecha

e abre;só uma parte de mim compreende que a

voz dos teus olhos é mais profunda que todas as rosas)

ninguém, nem mesmo a chuva,tem mãos tão pequenas

Tradução: Augusto de Campos

na estrênua brevidade

Vida:

realejos e abril

treva, amigos

eu me lanço rindo.

Nas tintas fio-de-cabelo

da aurora amarela,

no ocaso colorido de mulheres

eu sorrisando

deslizo.

Eu na grande viagem escarlate

nado, dizendomente;


(Você sabe?) o sim, mundo

é provavelmente feito

de rosas & alô:

(de atélogos e,cinzas)

Tradução: Augusto de Campos


tuas pernas plantas de sonho
cujo fruto alimenta o esquecimento
teus lábios sátrapas em escarlate
cujo beijo é uma união de reis
teus pulsos
sagrados
são guardiões das chaves do teu sangue
teus pés nos tornozelos são flores num vaso
de prata
em tua beleza o dilema das flautas
teus olhos são a traição
de sinos vistos por entre o incenso
Tradução: Mário Domingues


(a lua escorrega de uma nuvem
um relógio toca meia-noite
um dedo puxa um gatilho
um pássaro entra num espelho)


Tradução: Adalberto Muller


Formosa,hei de tocar-te com meu pensamento.
Tocar-te e tocar e tocar
até que de repente me
dês um sorriso,timidamente obsceno

(formosa hei de
tocar-te com meu pensamento.)Tocar
te,e só,

suave e inteiramente tu hás de tornar-te
com leveza infinita

o poema que não hei de escrever.

Tradução: Maurício Cardoso

quinta-feira, 4 de março de 2010

Johnny Alf - José Edson dos Santos


www.popsdiscos.com.br/generomusical.asp?secao...

Johnny Alf
um piano sideral
dedilh’alfa beta ômega
céu alegre
imenso do amor

Eu só sei
uma canção pra disfarçar
Bossa só
quase tudo igual

Tudo que é preciso
Eu e a brisa
samba sem balanço

Eu quis fugir de teus olhos
teclando infinito compasso

Podem falar
Sou um rapaz de bem
e por favor, seu Chopin
não vá ficar zangado
essa brisa insinuante
nos faz
um jazz
um Sinatra
um Farney
Fã Clube

sábado, 30 de janeiro de 2010

A Síndica das emoções subliminares José Edson dos Santos



http://www.google.com/images


Depois do café apressado no Grão de Pólen, do cigarro sedentário fumegado no preâmbulo matinal, da hipocondria que teimava em ficar remoendo um fatídico filme familiar, entro no elevador sozinho e deparo com Arlete, a síndica do prédio, como se estivesse substituindo a assessorista de minhas emoções subliminares. Ela se posiciona em minha frente dominadora para sussurrar próximo da orelha onde ostento um percing colocado por Eva Célia. Ontem a noite foi porreta, ela diz com a voz de Salomé, acionando o botão da porta impaciente. Fico encabulado mais ainda consigo contrapor com certo cinismo:

- Arlete, sua ninfomaníaca, assim você me maltrata. Tenho que voltar ao trabalho...

Com Arlete não há razão para preliminares de sutilezas do cama, mesa e foda. O abraço afoito, o beijo úmido e ardente, o desejo estampado nos olhos de lince faminta como se fosse a assessorista de minhas perversões sadomasoquistas. O trabalho na Gazeta da Asa Norte que aguarde a entrevista que faria com o Renato Matos sobre Olhos D'Água, amanhã entrego no meu horário adicional. "janeiro seria breve demais ou será mais verdadeiro?"

* Martha Medeiros, em Cartas Extraviadas. L&PM Pocket, 2009.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Martha Medeiros - Cartas Extraviadas



http://colunas.g1.com.br/files/25/2008/11/martha.jpg

Martha Medeiros é colunista do jornal Zero Hora de Porto Alegre, e de O Globo, do Rio de Janeiro. Trabalhou em propaganda e publicidade, mas logo se sentiu frustrada com a carreira. Quando seu marido recebeu uma proposta de trabalho no Chile, decidiu que uma mudança de país seria uma ótima oportunidade para dar um tempo na profissão. Esta estada de nove meses no Chile, na qual passou escrevendo poesia, acabou sendo um divisor de águas na sua vida. Quando voltou para Porto Alegre, começou a escrever crônicas para jornal e, a partir daí, sua carreira literária deslanchou. http://pt.wikipedia.org/wiki/Martha_Medeiros


minha desilusão e desejo foram folhetinescos
eu fui uma maria louca, uma ana das lágrimas
personagens cujos nomes trazem um destino
fui tereza dos anjos, vera das cruzes
chorei mais que em uma novela das oito
glória dos aflitos, santa dos mistérios
sofri em silêncio e aos gritos
rita das trevas, cássia das dores, rosa noturna
fui uma fátima de todos os lamentos
até que um dia me vi atendida em meus pedidos
sem prévio aviso não havia mais sufoco em meu peito
nem homem algum no pensamento
rebatizada: helena das flores, clara do sol
doeu também o amor deposto
visto que todo sentimento que some também é abandono
mas respiro melhor como rosa dos ventos, serena da silva

-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.--.

deixei cair a santa de gesso, espatifou no chão, a santa
não sei que santa era aquela que me foi dada
não tive curiosidade de saber, e ela quebrou no chão
antes de eu descobrir que tipo de proteção me aguardava

-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-.-

dia após dia o mesmo prato requentado
tarde da noite e nada aconteceu
desperto no escuro ainda é cedo pra acreditar
que vai haver futuro e que vale a pena
esperar de banho tomado

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Anas - José Edson dos Santos





Poema para acordar Ana Luiza


Talvez você não saiba, Ana

ananás é uma bromélia

que dá uma flor

e um fruto bem bacana


Que na luta do dia-a-dia

todos os sacanas dos abacaxis

devem ser descascados

com cuidado, Ana


Ana Galega


Transporto na carruagem dos dias

sinaleira de sonhos

ritos de infância

primaveras deveras


Olhos de omelete

fritando sol bardo

Beijo paisagem

amanhecida no rio do sono


Desabono babilaques

lirismo percevejo

onde moleque molho

linguagem-de-araque

em coração de serafim


Anacrônico


Quando acorda

o sol tem outra idade


a paisagem virou condomínio

e a manhã amadureceu

com o fruto da tenacidade


A música dos pássaros

cultiva o campo dos anos

onde o espanto é outro


Nunca vi ninguém perceber
anacrônico sentimento do espelho
na porcelana dos olhos de Ana

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Ano Novo e Esperança





Meia noite. Fim

de um ano, início

de outro. Olho o céu:

nenhum indício.


Olho o céu:

o abismo vence o

olhar. O mesmo

espantoso

silêncio


Da via láctea feito

um ectoplasma

sobre a minha cabeça:

nada ali indica

que um ano novo começa:

nada ali indica

que um ano novo começa:


E não começa

nem no céu nem no chão

do planeta:

começa no coração.


Começa como a esperança

de vida melhor

que entre os astros

não se escuta

nem se vê

nem pode haver;

que isso é coisa de Homem

esse bicho

estrelar

que soma

(e luta)





Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano

vive uma louca chamada Esperança

e ela pensa que quando todas as sirenas

todas as buzinas

todos os reco-recos tocarem

- Ó delicioso vôo!

Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,

outra vez criança...

e em torno dela indagará o povo:


- Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?

E ela lhe dirá

(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)

Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:

- O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

domingo, 20 de dezembro de 2009

Jorge de Lima - Poemas de Natal



oglobo.globo.com/blogs/fotoglobo/post.asp?t=b...

Jorge de Lima nasceu em Alagoas, em 1893. Fez os primeiros estudos em sua cidade, União, e depois em Maceió, no Colégio dos Irmãos Maristas. Estudou Medicina em Salvador, transferindo-se para o Rio de Janeiro, onde defendeu tese sobre os serviços de higiene na capital federal. Ainda estudante de Medicina, publicou seu primeiro livro, XIV Alexandrinos (1914). Após ter se formado, retornou a Maceió. Sem jamais ter abandonado a Medicina, lecionou na Escola Normal Estadual da cidade, chegando a ser diretor. Ocupou outros cargos públicos estaduais, como Diretor-Geral da Instrução Pública e Saúde e Deputado, além de manter constante seu interesse pelas artes plásticas.Em 1930, transfere-se, definitivamente, para o Rio de Janeiro, onde clinica e leciona Literatura Brasileira, nas Universidades do Brasil e do Distrito Federal. Em 1925 foi eleito vereador, ocupando, três anos mais tarde, a presidência da Câmara, no Rio de Janeiro. Assinalou a polimórfica trajetória com muitos e sucessivos rótulos estéticos: modernista, regionalista, nativista, “cantor da poesia negra e do folclore”, neo-simbolista, místico-realista, “poeta cristão.” ·Sua obra mais conhecida, "Essa negra Fulô", foi publicada em seu livro "Novos Poemas". Faleceu, no Rio de Janeiro, em 1953.

Poema de Natal

Era um Natal. E um poema de alegria
escrito pela mão que se iludia

E nele havia dádiva do dia
e nele havia sinos acordados;

e havia nele tudo o que se espera
com seus anseios sempre contrariados

só lhe faltava o que ninguém sabia
porque ficara n’alma o que fizera.

Poema de Natal

Era um poema freqüente
repetido
com o menino nos braços
de uma virgem
Desse poema presente
e sempre ouvido,
os tempos e os espaços
tinham origem
pois à origem do poema
sempre havia
essa virgem e o infante
e a poesia.
E era o início e era a extrema
da criação,
era o eterno e era o instante
da canção.

Natal

Feliz de quem, quando o ano termina,
possui um doce e acolhedor abrigo:
a companheira, o filho, a avó tão rara
ou mesmo o amigo
com quem possa se reunir em Cristo
e sua vida interior desperte viva
de dentro de si uma alma de São Francisco
o amor generoso, o heroísmo estranho
de beijar um leproso.

De lembrar-se de que há no mundo
criaturas de Deus pelo Natal
sem companheira, e sem a avó tão rara
e sem um beijo da mãe ou um beijo de filho,
e até um livro que substitua o amigo.

Feliz de quem, quando o ano termina,
pode ver a estrela no céu
e tem olhos ainda
para encontrar Jesus.