Amadeo de Souza, Saunt du Lapin, 1911
http://casoaul.wordpress.com/O CavaloOs meus sonhos formais serão teu cavaleiro,
meu destino luzindo teu belo cocheiro
por rédeas terás tensos levando à agonia,
meus versos, o modelo de toda poesia.
A SerpenteSei que te obstinam as beldades
e que nelas com acuidade
exerceu tua crueldade!
Cleópatra, Eurídice, Eva,
sei de outras três em tua leva.
O GatoDesejo manter em meu lar:
uma companheira a pensar,
andando entre livros um gato,
bons amigos sempre a passar
sem os quais o viver é ingrato.
A LebreNão sejas lascivo e assustado
como a lebre e o apaixonado,
faça com que o célebro seja
a fêmea que vários enseja.
O RatoBelos dias, rato das horas,
roído assim faço-me idas.
Deus! foram-me vinte e oito auroras,
penso eu muito mal vividas.
A LargataSó o trabalho é que enriquece.
Pobre poeta, à picareta!
A largata sem cessar tece
pra transformar-se em borboleta.
As SereiasSaberei eu porque cantam entediadas
longas ladainhas durante as madrugadas?
Mas, sou como tu, onde há vozes maquinando
meus cantantes barcos são anos navegando.
OrfeuA fatal fêmea do alcião,
o amor, as aladas Sereias,
sabem uma mortal canção
inumanas e cheias de teias.
Que não te encantem tais ruídos,
só anjos devem ser ouvidos.
( Poemas do livro
O Bestiário ou Cortejo de Orfeu, de Guillaume Apollinaire. Tradução de Álvaro Faleiros. Editora Iluminuras. SP, 1997 )