terça-feira, 8 de março de 2011

A manhã é feminina, e todo dia é dia dela...José Edson dos Santos/ Mulheres de Atenas - Chico Buarque




O mito de Eva nasceu da costela de Adão. Com ela surgiu o pecado original e o mistério que as Mulheres costumam produzir. Nos diferentes ritos da natureza humana, sabe que a vida é uma constante simbiose e que a alquimia de viver, o mais sagrado dos rituais. Clarividente das estações definitivas em perfeita harmonia com os astros e constelações, sinaliza no horizonte das horas o movimento dos ventos, o sentido do sol, da chuva e contempla outros fenômenos da natureza no seu êxtase maravilhoso. Natureza feminina com toda suas conexões.

Emana e vibra com energia, as florestas, os rios e os pássaros do poente. Uma ponte suspensa que leva a aurora boreal em transe. O sol e a lua molduram sua janela de quintessência que amamos. Essa imbricação traduz o presente inesperado em nosso imaginário de amor e morte, de paixão e loucura. A humanidade conhece a substância de seu tecido onde tece o vestido de sua ternura.

O perfume embriagador e fatídico de sua presença ao lado do homem, concebeu a vastidão e a geografia inusitada do mundo: Cleópatra, Lou Salomé, Anais Nin, Frida Kahlo, Olga Benário, Pagu, Luz Del Fuego, Elvira Pagã, Marisa Montini. São tantas outras que somam a luta de todos os dias por entre conquistas e sonhos, dos dias e das noites que testemunham e sinalizam o mistério prodigioso de sua existência.

Na diversidade cultural incomensurável, são tantas outras costelas: são putas, donas de casa, peruas, empresárias, beatas, porras-loucas, professoras e operárias. Imprescindíveis, no entanto, as mulheres que buscamos para complementar afeição e carinho que tanto procuramos com obsessão. Como disse o cronista, Deus criou o mundo em seis dias, no domingo descansou e na segunda criou a Mulher. Eternamente Mulher. Maravilhados tentamos entender o universo em seu corpo. Outra dádiva de Deus.

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Varal com 3 poetas amapaenses com Marabaixo Batuque de Olivar Cunha



Marabaixo - Batuque, de Olivar Cunha
http://olivarcunhaarte.blogspot.com/

Alcinéa Cavalcante (Jornalista, professora e escritora. Publicou dois livros de poesia: Estrela Azul e Dez Poemas. Em 2008 publicou com Rostan Martins dois livros de causos: Sambou e Zero Voto. Publicou em 2008 Varal, com Rostan Martins e Osvaldo Simões. Participa da Coletânea Poetas, Contistas e Cronistas do Meio do Mundo. Blogueira da arte e cultura amapaense em http://alcinea-cavalcante.blogspot.com )

Noturno

A noite
eu vigio estrelas
Me embriago
de amor e luar
Passeio com Hemingway em Paris
Visito os becos de Goiás
com Cora Coralina
E com Quintana
tento descobrir
o que é que os grilos
passam a noite inteirinha fritando

Dormir
é bom de manhãzinha
Quando o sol
- ainda tímido –
pula minha janela
pra me ninar

UM

Se eu soubesse
rezar verso
esta saudade
não estaria doendo tanto
como a dor
de não ser pássaro
para flutuar no azul

DOIS

Com as cordas
do violão
fiz um
varal de poesias
e pendurei
nas estrelas

E a noite
encheu-se
de música e versos

TRÊS

Já viu, meu amigo,
uma bailarina
que não baila?

Essa aí
fica o tempo todo
na minha estante
brincando de estátua

Oswaldo Simões Filho (Jornalista e poeta, autor de “Lamento Ximango”. Publicou em 2008 Varal, com Rostan Martins e Alcinéa Cavalcante. Participa da Coletânea Poetas, Contistas e Cronistas do Meio do Mundo. Tem livros inéditos de poesias e contos. Vive no império dos fatos e no jardim da imaginação).

Bares

canta galo
que o vico ouviu
um reclame no bar
de caboclo embarcado
em merengue...

na hora em que passou
pela esquina um gato azul
o poeta soletrou
em mãos carinhosas
o futuro no café society

a cabocla jarina baixou
no canto da parisiense
e da noite mal criada reclamou...

du pedro fez preces
aos três padroeiros
para o barrigudo
continuar a fazer
carnaval na rua...

Marés dos dias

No rio
de nossa infância
passa saudade
carregando cidade
onde umbigo ontem enterrado
hoje faz visagem

No rio
de nossa infância
para se remar
precisa ter coragem
pois é preciso atravessar
quintal de lembranças
descer ladeira
no falatório da vizinhança
fazer prece em corredeira
para menina
embrulhada em camisola
onde uma vontade
se enrola

Natural

O rio
não tem farsa
é água
que enche
que vasa
como a vida
que vem
e que passa

Rostan Martins ( Poeta, escritor, radialista, arquiteto, professor universitário e mestre em Semiótica. Autor do livro Alô, alô, Amazônia. Em 2008 publicou com Alcinéa Cavalcanti dois livros de causos: Sambou e Zero Voto. Em 2008 publicou hai-kais poéticos em Varal, com Alcinéa Cavalcante e Osvaldo Simões Filho. Participa da Coletânea Poetas, Contistas e Cronistas do Meio do Mundo. Blogueiro em http://rostan.zip.net

Ao Marabaixo

Vou roubar “ladrão”
na derrubada do mastro
Gengibirra faz lastro.

Faz cair pedaço
na nuvem da murta
caldo e cachaço.

O que tu esconde?
Saia rodada? Só paixão,
nos teus coxões?

O som dos caixeiros
é o bambolear das nádegas
das marabaixeiras.
Cortação do mastro,
homem, natureza e cultura,
junto no lastro.

À Macapá

Veja a brincadeira.
esmigalho amendoim,
pelada na beira.

Moleque empina
o pássaro preto
pipa de quina.

Vem rio em rio
assistindo a proeza
Amazonas no cio.

Parte da gente,
ardente na mente.
Amor contente.

Torrão beleza,
adorável paragem
e singeleza.

Apetitoso.
lugarzinho ditoso,
talhe gostoso.

Galanteio
gabo e elogio,
reclamo e odeio.

Quem amará:
Macapá com amores,
sem prejudicar.

Tuas chuvas, heim!
Gota cai, barulha.
A parte de nós.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Poemas edsoneanos esparsos com Cachorro Grande





Ray-ban

A saudade rói a manhã
O tempo Rayane
sopra brisa Ray-ban

Mito do bom velhinho

Dezembro chuvoso
Benedita rena de espera
Papai Noel paga prenda
no pé-de-chinelo velho


Moderex

Noite vagalume
Vagabunda sem piteira
nem quitinete de lascívia
um papo furado de sentimento parco
batom no colarinho bege
o desejo sestroso por Verbena
detona o último moderador de apetite
na sala retreta careta
toca Paulo Patife Band

Liliputh

Teu pé pequeno
peca e pisa
a brisa lisa
no roda-pé
de anã
rente
ao chão

Acabou o coquetel

Cadê o coronê do cerrado
seu cartel de conveniência e contravenção?
A curupira comeu na peia

Agora caliandra floresce vistosa
a chuva abate as mangas podres
nas invasões populistas

Acabou o coquetel molotov
O cerrado tem outra
sustentabilidade sensível
sem os insetos de outras estações

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

A anta do meu terraço de antúrios - José Edson dos Santos


Seria heresia dizer que alguém invadiu matreiramente meu terraço para se proclamar minha santa ladainha de devoção. Certamente a arte com seus signos, a poesia, o mantra e a seresta que compactuamos na toca da tapioca ajudou na deglutição das formigas no terreno do antipático tamanduá bandeira. Cabe a sagacidade da razão como forma de pensamento conter o duelo preliminar entre o desatino da paixão e o estilhaço disso tudo. O território do amor e do seu duplo sempre deságua no rio do zoológico inconsútil. O resto é conversa fiada de quem não presta atenção à estação do ano.

Você nem sabe o tanto que procurei a floresta de nossos delírios, a hiléia prosopopéia de anta que cantava um samba canção como sinfonia ao sol particular, mas um cisco abestalhado entrou em meus olhos abrolhos e fiquei perdido no mato sem os cachorros da rainha abelha. Matutei alguns instantes como centelha e lembrei de usar aquele colírio colorido que me deste quando peguei a conjutivite das corujas doidivanas. Foi um alívio e um ledo engano frustrante, pois da floresta encantada, onde as árvores que nos sombreavam na primavera, restava uma espécie de bungavília e o ipê roxo não estava florido. A samaumeira, onde gravaste teu nome de canivete junto ao meu, com dois coraçõezinhos amorosos e uma seta de cupido, foi podada pela especulação imobiliária otária. Depois dos condomínios, arranha-céus tenebrosos desafiando as alturas.

Minha lagoa santa, lembras dos dias em que tecias paisagens loucas no canto de minha boca sedenta de desejo e sal? Teus pêlos, tua pele esplendorosa reluziam na água maravilha de provocação e sede. Beijos mentolados de batom na chuva contrapondo ao sacrifício da carne na sexta-feira da paixão sem chocolate e cereja. Dançavamos mambo para curar dor de garganta. Precisava encontrar um antídoto para a tesão desenfreada e as inclemências do corpo bambo. Não tinha nada de sado-masoquista nisso, apenas um ato singelo de bem querer à anta que judia o coração abobalhado de sortilégio com uma santinha-do-pau-oco. Esse formigamento dá uma fissura danada! O jeito é escutar alguma coisa do Frank Zappa do que ficar esperando pela diamba da preguiça.

O calor invade o zoo. Peço uma fanta uva no tropical bar de sempre e a paixão escancarada se apodera do meu peito. Escute aqui, antinha escrachada, modere no moderex com coca-cola. Deixe de anorexia e quebranto. Não é legal ficar piradinha fazendo pirraça na praça das três garças mitificadas. Não complique o bailado trivial com o bolero descompassado dos quero-queros. Tente entender meu urro noturno embucetado, ando meio tresloucado com a bunda de quati de fora. Se o rio das antas não mudar seu curso e desaguar em meu estuário, garanto que viro uma capivara ensandecida para lutar contra minha insensatez. Se não for desta vez, de que adianta entrar na água santa de tua lagoa para lavar a manta de cetim que ficou tingida de mágoa e mercúrio?

Maldita enxaqueca que não me larga quando me deixas só. Solitário falando sozinho com os duendes do relento. Sou mais um mapinguari abandonado e ciumento na noite cinzenta. Preciso de vinho e uma jugular que acalante a pasmaceira de esperar pela segunda-feira cheia de surpresas, trazendo o sol de dezembro para bronzear as patas tentadoras de minha anta. Bichos estranhos e loucos nesta fauna fauvista e exótica reverenciamos a natureza de nossa costela para aquecê-la em um céu de pecados e estrelas. Mesmo com toda a rotação de disco alterado, espere por mim, antinha safada, na estrada que leva a boate dos suspiros. Prometo que levo um buquê de antúrios.