terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Fernando Canto - O Homem Curvo


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Fernando Canto - Escritor e compositor amapaense, premiado no I Concurso de Contos das Universidades do Norte (Núcleo de Arte/UFPA-1992), com o conto O Bálsamo, que depois virou título de livro, editado pela EDUPA (Belém-1995). Outras obras publicadas: Os Periquitos Comem Mangas na Avenida” (Macapá, 1984), Telas e Quintais (1987), Água Benta e o Diabo (1998) e equinoCIO (2004). Sobre a cultura amapaense em www.fernando-canto.blogspot.com/
O Homem Curvo
Meus olhos infantis ainda enxergam o homem sentado na ponta do trapiche; a trouxa ao lado e a calça escura balançando ao vento. Sua silhueta lembra um soldado descansando da campanha e o jeito magro e curvo parece mostrar mais lassidão, assim como um cavalo magro e velho pastando em campo infértil.
Há três dias aquele homem está sentado no mesmo lugar como se estivesse pescando sem linha, sem caniço ou anzol na maré seca de ondas ralas. Isso é motivo de preocupação. Mas a minha preocupação infantil é jogar meu futebol na praia lamacenta da frente da cidade. Não consigo, porém, me concentrar. A bola é chutada para dentro do rio que já vem enchendo. É lateral. Vou pegá-la adiante e vejo o homem mais perto. Ele está lá. Impassível. É uma estátua viva. “Joga a bola G.”, meus amigos gritam. Eu deixo a pelada de praia, me visto, apanho os jornais que me restam para vender e resolvo ir onde o homem está.
Um sol de equinócio racha meus cabelos escorridos e o solado dos meus pés acostumados que são a andar descalços sobre a enorme ponte de madeira. Ando quase 500 metros, encontrando pessoas e vou vendendo jornais. Ainda bem que o vento espanta esse sol abrasador. Barco chega, barco parte, ancora, aporta e descarrega. E o homem lá. Seu modo esquisito de se comportar dá a impressão que compartilha um segredo com as águas ondeantes do rio, pois elas chegam e varam os pilares do ancorandouro associando uma música estranha aos meus ouvidos.
Aproximo hesitante do homem curvo e ele não dá a mínima. Nem diz, como os outros adultos “Sai daí menino, é perigoso ficar na beira do trapiche”. Ofereço-lhe o último exemplar do jornal e ele fala “Não sei ler”. Mas eu respondo “Eu leio pro senhor”. “Não precisa, ele diz, eu sei de tudo o que se passou aí atrás, por isso estou aqui olhando as águas.”
Sento ao lado dele e fico horas jogando conversa fora. Parece que agora sei tudo sobre ele e entendo porque ele está ali há tanto tempo sem dormir, sem se alimentar e sem fazer as necessidades fisiológicas. Compreendo sua sede de olhar o rio que vem e que vai, assim como se apresenta o destino no meu entendimento de menino trabalhador. No calor da empatia lhe pergunto tudo. Ele me diz que só não pode dizer o que traz na sua trouxa. Fico aflito, mas ele me conforta, passando as mãos nos meus cabelos.
A manhã passa e um dia inteiro fica no passado. Eu ainda estou ao lado do homem contemplando o rio e os pássaros que flecham com seus voos o céu do poente e da nascente. Não sei quantos dias já se passaram. Sei apenas que num certo momento, na hora em que nascem os raios de sol, ele me fita e diz: “Vou embora. Mas vou deixar minha trouxa aqui neste trapiche. Por favor não abra. Adeus”.
Como se suas pernas fossem de pau, compridas, iguais às dos palhaços do Circo Garcia, ele levanta e segue para dentro do rio até desaparecer no canal.
Lembro que chorei muito. Ao chegar em casa a febre inevitável do encantamento me fez delirar por tantos dias que quase fui internado no Hospital Geral. Mas nada como um chá de ervas e outros esforços familiares para eu ficar bom. Até benzeção e banho de cheiro me ajudaram na retirada do quebranto.
Ao olhar, hoje, o rio e as ondas se quebrarem no trapiche, na emoção de pisar no baluarte de Nossa Senhora da Conceição, sobre a Fortaleza de São José de Macapá, não vejo mais a silhueta do homem curvo. Mas tenho a ligeira impressão que ele ainda está lá. Não sumiu no canal. Todavia, creio que se ele não estiver, está a sua trouxa de sarrapilha encostada num pau de amarração dos barcos. E nela, intuo, reside algo bom, tão bom quanto a esperança que precisa ser guardada numa trouxa qualquer, sob pena de homens e crianças perderem o encantamento que mora no barro e emerge sempre do fundo do rio.
(Publicado no livro “Trapiche – Ancoradouro de Sonhos”. Edição comemorativa à reconstrução do Trapiche Eliezer Levy. Org. Marcia Correa.)

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

William Butler YEATS



Retrato de W.B. Yeats, da autoria de seu pai, John Butler Yeats - 1906


William Butler Yeats nasceu em 13 de junho de 1865, em Dublin, Irlanda, onde se desenvolveu em um meio culto e criativo. Poeta e autor teatral, Prêmio Nobel (1923) de Literatura. Foi o representante máximo do Renascimento irlandês e um dos escritores mais destacados do século XX.
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O Prazer do Difícil


O prazer do difícil tem secado

a seiva em minhas veias.

A alegria espontânea se foi.

O fogo esfria no coração.

Algo mantém cercado meu potro,

como se o divino passo

já não lembrasse o Olimpo,

a asa, o espaço, sob o chicote,

trêmulo, prostrado,

e carregasse pedras.

Diabos levem

as peças de sucesso que se escrevem

com cinqüenta montagens e cenários,

o mundo de patifes e de otários

e a guerra cotidiana com seu gado,

afazer de teatro, afã de gente.

Juro que antes que a autora se apresente

eu descubro a cancela e abro o cadeado.


Berenice


Sonhei que a noite se fez luz

e, aberto o céu de par em par,

que os meus cabelos eu depus

sobre um sepulcro inscrito: Amar.

E alguém levou-os sem que eu visse

num grande turbilhão de ar

e foi pregar uma fogueira

no breu da noite - a cabeleira

branca, a brilhar, de Berenice.
A Rosa do Mundo
Quem sonhou que a beleza passa como um sonho?
Por estes lábios vermelhos, com todo o seu magoado orgulho,
tão magoados que nem o prodígio os pode alcançar,
Tróia desvaneceu-se em alta chama fúnebre,
e morreram os filhos de Usna.
Nós passamos e passa o trabalho do mundo:
entre humanas almas que se agitam e quebram
somo as pálidas águas e seu fluxo invernal,
Sob as estrelas que passam, sob a espuma do céu,
vive este solitário rosto.
Inclinai-vos, arcanjos, em vossa incerta morada:
antes de vós, ou de qualquer palpitante coração,
fatigado e gentil alguém esperava junto ao seu trono;
ele fez do mundo um caminho de erva
para os seus errantes pés.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Solano Trindade e Jorge Amancio



O Dia da Consciência Negra é um dia celebrado no Brasil, dedicado a reflexão sobre a inserção do negro na sociedade brasileira. A data foi escolhida por coincidir com o dia da morte de Zumbi dos Palmares, em 1695. O dia é celebrado desde a década de 1970, embora só tenha ampliado seus eventos nos últimos anos; até então, o movimento negro precisava se contentar com o dia 13 de Maio, Abolição da Escravatura – comemoração que tem sido rejeitada por enfatizar muitas vezes a "generosidade" da Princesa Isabel, ou seja, ser uma celebração da atitude de uma branca.


Abolição número dois (Solano Trindade)


Parem com estes batuques,

Bombos e caracaxás,

Parem com estes ritmos

tristes e sensuais

Deixem que eu ouça

Que eu veja

Que eu sinta

O grito

A cor

E a forma

da minha libertação...


Meu Reino (Jorge Amancio)


Reino nas páginas policiais

Reino nas favelas, nos mocambos

Reino nos cárceres, nos hospícios

Reino no analfabetismo,

nos assassinados


Reino num continente de fome

outrora promissor, místico,

dono dos segredos de Lemúria


Reino nas injustiças do

esquecimento,

na exploração da desinformação


Reino nos guetos, nas favelas

nas esquinas, nos sinais

debaixo das pontes

nos sem tetos

nos de rua


Reino nos abastados

na gravidez precoce

nos sem renda

nos com fome


Reino no reino outorgado

fadado a desaparecer

excluído do poder


Reino que reino

de gente negra

sábado, 14 de novembro de 2009

Pão Moreno - José Edson dos Santos


Pão Moreno

Poesia perdão
Tudo vale a pena
se a alma não é pequena
A vida só é possível
reiventada
Se a vida é curta ou longa
demais para nós
a esperança não murcha
ela não cansa
também como ela
não sucumbe a Crença
Quando o dia está bonito
ainda a gente se distraí
O amor é grande
e cabe nesta janela sobre o mar
mas há a vida que é para ser
intensamente vivida
há o amor que tem que ser vivido
até a última gota
no gelo da indiferença
ocultam-se as paixões
O segredo é não correr
atrás das borboletas...
O perdão vem de qualquer lugar
e por onde passamos
goza, goza da flor da mocidade
Tu não estás comigo em momentos escassos
Abrindo um antigo caderno
foi que descobri
Antigamente eu era eterno
Quando amo
eu devoro
todo o meu coração
Traze-me um pouco de alvura dos luares
O mar é grande e cabe na cama e no colchão do amor
Mas nele é que espelhou o céu
Voltam sonhos nas asas da esperança
Aqui fora está tão frio
e lá dentro está também
Cuidar do jardim para que ele sonhe até você
Se não tocamos o coração das pessoas
Navegar é preciso
Viver não é preciso
Se oculta lava quente
do seio dos vulcões
Vê que nem te peço ilusão
no pensamento meu amor
tu vives nua
O tempo trota a toda ligeireza
não é motivo para não querê-las...
Eu odeio eu adoro numa mesma oração
Poesia perdão
Pão Moreno

Reinvenção edsoneana com colagem poética de: Amanda Avelino, Cora Coralina, Cecília Meireles, Clarice Lispector, Florbela Espanca, Chico Buarque, Mário Quintana, Vinicius de Morais, Gregório de Matos, Manoel Bandeira, Paulo Leminski, Augusto dos Anjos, Carlos Drummond de Andrade, Fernando Pessoa e Tom Jobim.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Lontra do Contra - José Edson dos Santos



www.agenda.pt/iframe.php?cat=EVENTOS

Abra os Quatros Quartetos
no teto taciturno de T.S.Elliot
um caldo de pilhéria do Oswald

Lustre os cílios de lady raposa
no espartilho de rosa da madrugada
dê uma sacada nos olhos de Morfeu

Acredite nos patins de Afrodite
decolando pelos jardins dos pássaros
mas antes assovie uma cantiga do Quintana

O arquiteto da dor nunca sorri
trama sempre o conflito
do poema mudo num grito

Repercute ainda o mantra onde a noite
remete à memória de águas claras
mágoas e estórias de uma Lontra do Contra

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Poemação 3 - José Edson dos Santos

Poemação 3 - Biblioteca Nacional de Brasília 14/10/2009
José Edson dos Santos acompanhado de Liminha (violão 12 cordas) e Fernando Machado (Clarineta)
Vídeo de Paulo Kauim


terça-feira, 15 de setembro de 2009

Jean BAUDRILLARD


http://images.google.com/

A arte sempre seguiu regras e os padrões estéticos da sociedade em que esteve contextualizada. Podendo também assumir um caráter próprio através das influências dos artistas vanguardistas que a visualizaram. Padrões, estilos e proposições da arte e da cultura midiática sempre foram recomendadas por alguns intelectuais e dândis que desejam impôr seus padrões e estéticas a toda sociedade menos esclarecida. Lendo Moderno e Pós-Moderno, de Teixeira Coelho, pintaram alguns questionamentos: O contemporâneo, aquilo que é do tempo em que vivemos, é moderno? A modernidade toda ela, é contemporânea? Por ser moderna uma coisa é contemporânea? Pode o contemporâneo ser antigo? Para mediar e contrapor essas questões imbricadas em outras considerações, surgiu um fragmento textual de Jean Baudrillard.
“Se fosse caracterizar o estado atual de coisas, eu diria que é o da pós-orgia. A orgia é o momento explosivo da modernidade, o da liberação em todos os domínios. Liberação política, liberação sexual, liberação das forças produtivas, liberação das forças destrutivas, liberação da mulher, da criança, das pulsações inconscientes, liberação da arte. Assunção de todos os modelos de representação e de todos os modelos de anti-representação. Total orgia de real, de racional, de sexual, de crítica e de anticrítica, de crescimento e de crise de crescimento. Percorremos todos os caminhos da produção e da superprodução virtual de objetos, de signos, de mensagens, de ideologias, de prazeres. Hoje, tudo está liberado, o jogo já está feito e encontramo-nos coletivamente diante da pergunta crucial: o que fazer após a orgia?”.
(...)
No fundo, a revolução já aconteceu em toda parte, mas não do modo como se esperava. Em toda a parte, o que foi liberado o foi para passar à pura circulação, para entrar em órbita. Com certo recuo, pode-se dizer que o fim inelutável de toda a liberação é fomentar e alimentar as redes. As coisas liberadas são dadas à comutação incessante e, portando, à indeterminação crescente e ao princípio de incerteza.
(...)
Quando as coisas, os signos, as ações são libertadas de sua idéia, de seu conceito, de sua essência, de seu valor, de sua referência, de sua origem e finalidade, entram então numa auto-reprodução ao infinito. As coisas continuam a funcionar ao passo que a idéia delas já desapareceu há muito. Continuam a funcionar numa indiferença total a seu próprio conteúdo. E o paradoxo é que elas funcionam melhor ainda.
Assim, a idéia de progresso desapareceu, mas o progresso continua. A idéia de riqueza que sustenta a produção desapareceu, mas a produção continua firme. Ao contrário, ela acelera-se à medida que se torna indiferente a suas finalidades de origem. Do aspecto político, pode-se dizer que a idéia desapareceu, mas que o jogo político continua numa indiferença secreta a seu próprio desafio. Da televisão, pode-se dizer que ela se passa numa indiferença total as suas próprias imagens (ela poderia continuar assim até na hipótese do desaparecimento do homem). Haveria em todo o sistema, em todo o indivíduo, a pulsão secreta de livrar-se de sua própria idéia, de sua própria essência, pra conseguir proliferar em todos os sentidos, para extrapolar em todas as direções? Mas as conseqüências dessa dissociação só podem ser fatais. Qualquer coisa que perca a própria idéia é como o homem que perdeu a sombra – cai num delírio em que se perde.
Aqui começa a ordem, ou a desordem metastática, de demultiplicação por contigüidade, de proliferação cancerosa ( que não obedece nem ao código genético do valor). Esmaece então de certa forma em todos os domínios a grande aventura da sexualidade, dos seres sexuados – em proveito do estádio anterior (?) dos seres imortais e assexuados, reproduzindo-se Omo os protozoários, por simples divisão do Mesmo e declinação do código. Os seres tecnológicos atuais, as máquinas, os clones, as próteses, todo eles tendem para esse tipo de reprodução e, lentamente, induzem os mesmo processos nos seres chamados humanos e sexuados. Todas as tentativas atuais, entre as quais a pesquisa biológica de vanguarda, tendem para a elaboração dessa substituição genética, de reprodução seqüencial linear, de clonagem, de partenogênese, de pequenas máquinas celibatárias.
Na época da liberação sexual, a palavra de ordem foi “o máximo de sexualidade com o mínimo de reprodução”. Hoje, o sonho de uma sociedade clônica seria o inverso: o máximo de reprodução com o mínimo possível de sexo. Outrora o corpo foi a metáfora da alma; depois foi a metáfora do sexo; hoje não é mais metáfora de coisa nenhuma. É o lugar da metástase, do encadeamento maquínico de todos os seus processos, de uma programação infinita sem organização simbólica, sem objetivo transcendente, na pura promiscuidade consigo mesmo, que é também a das redes e dos circuitos integrados.” (Jean BAUDRILLARD. Fragmento de A Transparência do Mal: Ensaios sobre os Fenômenos Extremos. Editora Papirus, São Paulo, 1992.)