sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Poemas edsoneanos esparsos com Cachorro Grande





Ray-ban

A saudade rói a manhã
O tempo Rayane
sopra brisa Ray-ban

Mito do bom velhinho

Dezembro chuvoso
Benedita rena de espera
Papai Noel paga prenda
no pé-de-chinelo velho


Moderex

Noite vagalume
Vagabunda sem piteira
nem quitinete de lascívia
um papo furado de sentimento parco
batom no colarinho bege
o desejo sestroso por Verbena
detona o último moderador de apetite
na sala retreta careta
toca Paulo Patife Band

Liliputh

Teu pé pequeno
peca e pisa
a brisa lisa
no roda-pé
de anã
rente
ao chão

Acabou o coquetel

Cadê o coronê do cerrado
seu cartel de conveniência e contravenção?
A curupira comeu na peia

Agora caliandra floresce vistosa
a chuva abate as mangas podres
nas invasões populistas

Acabou o coquetel molotov
O cerrado tem outra
sustentabilidade sensível
sem os insetos de outras estações

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

A anta do meu terraço de antúrios - José Edson dos Santos


Seria heresia dizer que alguém invadiu matreiramente meu terraço para se proclamar minha santa ladainha de devoção. Certamente a arte com seus signos, a poesia, o mantra e a seresta que compactuamos na toca da tapioca ajudou na deglutição das formigas no terreno do antipático tamanduá bandeira. Cabe a sagacidade da razão como forma de pensamento conter o duelo preliminar entre o desatino da paixão e o estilhaço disso tudo. O território do amor e do seu duplo sempre deságua no rio do zoológico inconsútil. O resto é conversa fiada de quem não presta atenção à estação do ano.

Você nem sabe o tanto que procurei a floresta de nossos delírios, a hiléia prosopopéia de anta que cantava um samba canção como sinfonia ao sol particular, mas um cisco abestalhado entrou em meus olhos abrolhos e fiquei perdido no mato sem os cachorros da rainha abelha. Matutei alguns instantes como centelha e lembrei de usar aquele colírio colorido que me deste quando peguei a conjutivite das corujas doidivanas. Foi um alívio e um ledo engano frustrante, pois da floresta encantada, onde as árvores que nos sombreavam na primavera, restava uma espécie de bungavília e o ipê roxo não estava florido. A samaumeira, onde gravaste teu nome de canivete junto ao meu, com dois coraçõezinhos amorosos e uma seta de cupido, foi podada pela especulação imobiliária otária. Depois dos condomínios, arranha-céus tenebrosos desafiando as alturas.

Minha lagoa santa, lembras dos dias em que tecias paisagens loucas no canto de minha boca sedenta de desejo e sal? Teus pêlos, tua pele esplendorosa reluziam na água maravilha de provocação e sede. Beijos mentolados de batom na chuva contrapondo ao sacrifício da carne na sexta-feira da paixão sem chocolate e cereja. Dançavamos mambo para curar dor de garganta. Precisava encontrar um antídoto para a tesão desenfreada e as inclemências do corpo bambo. Não tinha nada de sado-masoquista nisso, apenas um ato singelo de bem querer à anta que judia o coração abobalhado de sortilégio com uma santinha-do-pau-oco. Esse formigamento dá uma fissura danada! O jeito é escutar alguma coisa do Frank Zappa do que ficar esperando pela diamba da preguiça.

O calor invade o zoo. Peço uma fanta uva no tropical bar de sempre e a paixão escancarada se apodera do meu peito. Escute aqui, antinha escrachada, modere no moderex com coca-cola. Deixe de anorexia e quebranto. Não é legal ficar piradinha fazendo pirraça na praça das três garças mitificadas. Não complique o bailado trivial com o bolero descompassado dos quero-queros. Tente entender meu urro noturno embucetado, ando meio tresloucado com a bunda de quati de fora. Se o rio das antas não mudar seu curso e desaguar em meu estuário, garanto que viro uma capivara ensandecida para lutar contra minha insensatez. Se não for desta vez, de que adianta entrar na água santa de tua lagoa para lavar a manta de cetim que ficou tingida de mágoa e mercúrio?

Maldita enxaqueca que não me larga quando me deixas só. Solitário falando sozinho com os duendes do relento. Sou mais um mapinguari abandonado e ciumento na noite cinzenta. Preciso de vinho e uma jugular que acalante a pasmaceira de esperar pela segunda-feira cheia de surpresas, trazendo o sol de dezembro para bronzear as patas tentadoras de minha anta. Bichos estranhos e loucos nesta fauna fauvista e exótica reverenciamos a natureza de nossa costela para aquecê-la em um céu de pecados e estrelas. Mesmo com toda a rotação de disco alterado, espere por mim, antinha safada, na estrada que leva a boate dos suspiros. Prometo que levo um buquê de antúrios.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Negras Poesias e Itamar Assumpção - Luzia



ESCOVA PROGRESSIVA?
Cristiane Sobral (Nasceu no Rio de Janeiro, em 1974, e reside em Brasília desde 1990. Como escritora, possui poemas e contos publicada na Antologia Cadernos Negros, edições 23, 24, e 25. Graduada como atriz habilitada em Interpretação Teatral pela Universidade de Brasília, sendo a primeira negra a ganhar o título acadêmico. http://crisobral.sites.uol.com.br/)

Se a raiz é agressiva
Escova progressiva
Se a raiz é agressiva
Escova progressiva
Aí!
Eu tenho medo do formol!
Eu tenho medo do formol
Abaixo a chapinha no cabelo da neguinha
Abaixo a chapinha no cabelo da neguinha
Abaixo, abaixo, abaixo!


PIXAIM ELÉTRICO
Cristiane Sobral

Naquele dia
Meu pixaim elétrico gritava alto
Provocava sem alisar ninguém
Meu cabelo estava cheio de si

Naquele dia
Preparei a carapinha para enfrentar
a monotonia da paisagem da estrada
Soltei os grampos e segui, de cara pro vento, bem desaforada...
Sem esconder volumes nem negar raízes.

Pura filosofia
Meu cabelo escuro, crespo, alto e grave...
Quase um caso de polícia em meio à pasmaceira da cidade
Incomodou identidades e pariu novas cabeças

Abaixo a demagogia
Soltei as amarras e recusei qualquer relaxante
Assumi as minhas raízes ainda que brincasse com alguns matizes
Confrontando o meu pixaim elétrico com as cores pálidas do dia.


BOTE
Cuti (Luiz Silva Cuti é escritor, Mestre em Teoria da Literatura e doutorando no Instituto de Estudos da Linguagem - UNICAMP. Publicou, dentre outros, Flash Crioulo sobre o Sangue e o Sonho (poemas - 1987) Quizila (contos - 1987), Dois Nós na Noite (teatro -1991) e Negros em Contos (1996).

aos que ainda caçam
escravos
meu cuspe de desacato
e o fogo de fato
a derreter abismos
chego ao coração do
suicídio
e não me mato
liberto noite s repletas de gatos
e salto
com sete vidas
afiadas unhas
na jugular dos palhaços

NAÇÃO INUSITADA
Cuti


em festa rodopiem o desejos
este beijo é mais
que o ensejo
do sexo

mundos em melanina se fundem no afeto
reencontro de rios perdidos
selvas
sagas
mares temperados com africanas algas
eletrizantes peixes pretos
e seus volts de memória
atávica

neste encontro de fontes
ontens em lábios-romã celebram
orgasmos intensos de amanhãs passíveis
e os deuses deixam-se os poros abertos
neste ir e vir
de ancestrais suores

OXUM
Jorge Amâncio (Carioca, nasceu em 1953 e reside em Brasília desde 1976. Licenciado em Física pela Universidade de Brasília, professor da Fundação Educacional do Distrito Federal, participante e ativista de movimentos sociais de luta contra o preconceito racial. Começou a publicar seus textos poéticos no jornal Raça do M.N.U. (Movimento Negro Unificado), no início dos anos 80. É responsável, com Marcos Freitas, pela organização do evento Poemação no auditório da Biblioteca Nacional de Brasília, desde meados de 2009).


Oh! Sol da beleza!
Rainha dos raios!
De Ogum, Oruminlá e Oxossi
Segunda de Xangô

Fertilize a terra
Sêmen que tens
no ventre de luz
abrangente de paz

Oh! Sol, rainha!
Oxum beleza

NEGRO SAFADO
Jorge Amâncio

Eta negro safado
Um novo tarado
Pancada ao troco

Êta negro safado!
- Olha a rua
Negro de rua
- Fecha o trânsito
- Tranca rua

Êta negro safado
Que fica calado
Braços cruzados
se lado a tudo
sem conteúdo

Êta negro safado!
- Entra pelos fundos
Elevador de serviço
- Um sorriso
- sim doutor

Êta negro safado!
- É um assalto!
De dentes cerrados
- É uma arma!
De pernas lonhas
- É a polícia!

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A morte em poesia



Angélica T.Almstadter

http://www.overmundo.com.br/banco/a-morte-4



xfavelagrindx.blogspot.com/2008/11/dia-dos-mo...

Os Mortos (Abel Silva)

Deixem os mortos, eles não se levantam mesmo
me diz pela boca e narinas
o poeta Bob Dylan.
Mas os mortos se levantam sempre
( alguns sequer se deitam )
atravessam o ritmo das culturas
requentam o mormaço dos remorsos
azedam o estio das paixões.
A cada notícia da violência
de todos os dias
um morto toca a tua fronte
outros erigem monumentos a outros mortos
comandam exércitos
impingem o hálito podre às narinas indefesas
hipnotizam auditórios
disparam carros
abortam utopias
escrevem em jornais.
Difundir a morte
é a sua alegria
no seu ofício trabalham
noite e dia
e não se cansam
jamais

Madalena Sem Panos (Nauro Machado)

O morto requer precisa
de espelho para o seu rosto.
Nenhum espelho dispõe
dos olhos já tão translúcidos

do morto. Do morto que, além,
destituído de corpo,
jamais precisa de corpo,
jamais precisa de espelho
para olhar sequer seu rosto.

Todo dia é dia D (Torquato Neto)


Desde que saí de casa
trouxe a viagem da volta
gravada em minha mão
Enterrada no umbigo
dentro e fora assim comigo
minha própria condução
Todo dia é dia dela
pode não ser pode ser
abro a porta e a janela
Todo dia é dia D
Há urubus nos telhados
e a carne-seca é servida
um escorpião encravado
na sua própria ferida
não escapa, só escapo
pela porta da saída
Todo dia é o mesmo dia
de amar-te, amorte, morrer
Todo dia menos dia
mais dia é dia D

Véspera do dia dos mortos (Luís Antonio Cajazeira Ramos)


Eu não amei meu pai como devia.
Houve o dia de amá-lo e não o amei.
Ele morreu, e não nasci ainda.
Amanhã levantei sem seu amor.

Nenhum conselho amigo soa seu.
Uma vida padrasta me acompanha.
Meu caminho não quis olhar pra trás.
Tão longe de meu pai me abandonei.

Nem meu, nem de ninguém, nunca fui seu.
Não me quis dar a quem eu estranhava.
Só teu colo, mamãe, era aconchego.

Do pai, resta-me um calo de silêncios.
Ai, arranco do peito o corpo estranho.
Coração, cava o chão, busca meu pai.

Os mortos riem...(Robson Sampaio)

No Dia dos Mortos,
os mortos riem do choro
e das rezas dos vivos,
lamúrias perturbadoras
da paz e do silêncio
do Campo Santo.

Os mortos riem tal qual
hienas: sorrisos permanentes...
Mas, os vivos choram e choram,
rezam e rezam, enquanto os mortos
riem, riem e até gargalham...

Os mortos riem,
no Dia dos Mortos, ou não.
Tal qual hienas: sorrisos permanentes,
escárnio dos vivos-sobreviventes e mortos-vivos,
rotina da vida eternamente...