segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Poesias em Ser Criança




http://waldartesvisuais.blogspot.com/2010/08/achados...

Como disse um poeta ponta de lança de minha infância, “como é bom voltar a ser criança”. Reviver o período de encanto e ternura, descobertas e aprendizagens significativas no universo mágico da existência. A arte sempre teceu um manto imaginário de significados da infância. A música e a poesia ampliaram essa quintessência de cântico e clamor com imagens que ficaram flutuando em nossos sonhos. Assim como poetaram Cecília Meireles, Henriqueta Lisboa, Vinícius de Moraes, Mário Quintana e Zeca Baleiro, velhos sonhos de infância.

OU ISTO OU AQUILO (Cecília Meireles)
Ou Isto ou Aquilo Ou se tem chuva e não se tem sol
ou se tem sol e não se tem chuva! Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!
Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo em dois lugares!
Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.
Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

No último andar é mais bonito:/do último andar se vê o mar./É lá que eu quero morar./ O último andar é muito longe:/ custa-se muito a chegar./
Mas é lá que eu quero morar./Todo o céu fica a noite inteira/
sobre o último andar/É lá que eu quero morar./
Quando faz lua no terraço/fica todo o luar./ É lá que eu quero morar./
Os passarinhos lá se escondem/para ninguém os maltratar:/no último andar.
De lá se avista o mundo inteiro:/ tudo parece perto, no ar./
É lá que eu quero morar:/ no último andar.

O MENINO POETA (Henriqueta Lisboa)
O menino poeta/não sei onde está/procuro daqui/procuro de lá/tem olhos azuis/ou tem olhos negros?/Parece Jesus/ou índio guerreiro?
Ai! que esse menino/será, não será?/procuro daqui/procuro de lá.
O menino poeta/quero ver de perto./Quero ver de perto/para me ensinar/as bonitas coisas/do céu e do mar.

A CASA (Vinicius de Moraes)
Era uma casa
Muito engraçada
Não tinha teto
Não tinha nada
Ninguém podia
Entrar nela não
Porque na casa
Não tinha chão
Ninguém podia
Dormir na rede
Porque na casa
Não tinha parede
Ninguém podia
Fazer pipi
Porque penico
Não tinha ali
Mas era feita
Com muito esmero
Na Rua dos Bobos
Número Zero

DORME RUAZINHA… É TUDO ESCURO!…(Mário Quintana)

Dorme ruazinha… É tudo escuro…
E os meus passos, quem é que pode ouvi-los?
Dorme teu sono sossegado e puro,
Com teus lampiões, com teus jardins tranqüilos…

Dorme… Não há ladrões, eu te asseguro…
Nem guardas para acaso perseguí-los…
Na noite alta, como sobre um muro,
As estrelinhas cantam como grilos…

O vento está dormindo na calçada,
O vento enovelou-se como um cão…
Dorme, ruazinha… Não há nada…

Só os meus passos… Mas tão leves são,
Que até parecem, pela madrugada,
Os da minha futura assombração…

CANÇÃO DO INTERIOR (Zeca Baleiro)

Feito índio na canoa/ bicho-de-pé carrapato/
tamarindo fruta boa/ picada aberta no mato/
futebol de sol a pino/ felicidade era fato/
tosse gripe passa ungüento/ saci não usa sapato/
vida de menino bento/ bento monteiro lobato/

minha arca de noé/ eram bichos nos quintais/
porco marreco cabrito/ como já não se vê mais/
jacaré fugiu do rio/ corre que lá vem zás-trás/
“to fraco” grita a galinha/ d’angola nhambus guarás/
meu quintal faria inveja/ a vinícius de moraes

domingo, 3 de outubro de 2010

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Oi Poema - Lançamento



Cristiane, Nicolas e Bic; (atrás:) Amneres, Turiba e Angélica, em foto de Eraldo Peres.

Poetas lançam sete livros em grande encontro literário e cultural. Dia 28/09, a partir de 18h, no Espaço Cultural Renato Russo, 508 Sul.

Demorou quase dois anos a gestação da Coleção OIPoema, que chega ao público no próximo dia 28, 3ª feira, no Centro de Criatividade 508 Sul. São seis livros de poetas de palavras: Luzidianas, de Angélica Torres Lima; Não vou mais lavar os pratos, de Cristiane Sobral, Poemas de um livro verde, de Bic Prado; Diário da Poesia em Combustão, de Amneres; Meiaoito de Luis Turiba; Bagaço da Laranja II, de Nicolas Behr, e junta-se ao grupo o poeta visual e gráfico Resa (Luis Eduardo Resende), com Miserere Nobis. Os livros saem com o selo da Produtora Sinhá, sob direção de Mônica Monteiro, por meio do apoio financeiro do FAC/Secretaria de Cultura do DF.

Além da ação de publicar e lançar os livros, o grupo OIPoema tomou a iniciativa de adotar escolas públicas de áreas carentes do DF, como contrapartida ao apoio recebido do Fundo de Apoio à Cultura (FAC-SECDF). Durante duas semanas de setembro, os poetas visitaram escolas de áreas carentes, doaram livros, fizeram recitais e breves conferências para os alunos. “A leitura cria a fantasia para a criança, além de ser uma forte ação social de ajuda no combate ao avanço do crack entre os nossos jovens”, afirma Luis Turiba, coordenador da coleção. Com esse princípio, os “Ois” poetas – que, aliás, atuam sem nenhum patrocínio de empresas de telefonia celular – acreditam poder fazer algo mais útil do que simplesmente doar uma cota da tiragem dos livros ao FAC, no acordo da contrapartida fixada pela Secretaria de Cultura do DF. (Divulgação OiPoema)

LANÇAMENTO DA COLEÇÃO OIPOEMA – Em 28 de setembro, terça-feira, a partir de 18h, no Espaço Cultural Renato Russo do Cento de Criatividade 508 Sul. Preço de capa unitário: R$ 20. Preço da coleção completa: R$ 70.

Coletivo de Poetas na Barca Brasília







A Barca Brasília Poética que sai do Cais da Concha Acústica, Setor de Hotéis e Turismo Norte, navegou pelo Lago Paranoá iluminada pela esplendorosa lua cheia do Planalto Central e ao sabor dos versos ditos e cantados pelo Coletivo de Poetas nos dias 25 e 26 de setembro. Participaram do sarau os poetas convidados, Basilina Pereira, José Edson dos Santos, Menezes y Morais e o músico e professor Fernando Machado. Imagens do passeio através do olhar fotográfico de Basilina Pereira.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

De tão azul, sangra - Ray Cunha


O sabiá da minha quadra começa sua armadilha de amor às 4h30. Acordo, às 5 horas, com seu canto. Ligo o abajour do criado mudo, visto-me, ponho um casaco e vou ao banheiro. Depois vou para a cozinha e preparo café Três Corações, gourmet. Bebo três xícaras de fumegante arábica com leite em pó, pãezinhos com manteiga ou doces. Faço minhas orações. São 6 horas. Os pássaros fazem algazarra na fria manhã de inverno tropical de altitude.

Ao sair de casa dou de cara com nova rosa no meu jardim. É uma pequena rosa amarela que se banha, sem prestar atenção a mim, ao sol redentor. Namoro-a. Ela continua seu banho, alheia ao mundo. As rosas são assim mesmo, só se importam com o sol. Mas eu gostaria de continuar perto dela apenas para a amar. Contudo, só beija-flores, borboletas e, claro, o sol e a brisa a tocam as rosas. E também mulheres que amam.

Parece que Deus arrumou a manhã para mim. As mangueiras estão grávidas e no ar pairam risos de crianças e tênues cheiros que lembram mulher com Chanel número 5 e mar. Certa vez, sentou-se ao meu lado, no ônibus, uma menina. Teria 14 anos. Tinha o encanto que todas as meninas têm. Perguntou-me onde ficava tal lugar – queria descer ali. Sosseguei-a. Disse-lhe que a avisaria quando ela deveria descer. Passado um pouco, ela cochilou e encostou a cabeça no meu ombro. Olhei-a. Dormia como uma criança. Procurei não me mexer até o ponto em que ela deveria descer. Acordei-a. Ela despertou sorrindo, agradeceu e se foi. Tinha a indiferença das rosas, mas, como as rosas, deixou um rastro tênue de cheiros.

Depois do trabalho, de volta a casa, paro no Big Bar, na 311 Sul, e peço uma Bohemia. Sabe-me enevoada. O rio da tarde murmura. A tarde se evola, se dilui. Os flocos negros da noite começam a cair. O sol se põe e os sons da tarde vão dando lugar à noite. Uma mulher passa na calçada. É uma linda mulher, que enobrece mais ainda os murmúrios do anoitecer.

Lembro-me, de repente, do Walmir Botelho, que me ensinou a transitar nas esquinas tumultuadas das redações dos jornais. O Walmir Botelho é diretor de redação de O Liberal de Belém do Pará. Quando vou a Belém, tomo meu banho noturno bebendo Cerpinha, e depois continuo bebendo Cerpinha e vendo a cidade, lá embaixo, da janela do hotel. Em Goiânia, bebo Brahma; no Rio de Janeiro, chopp da Brahma; em Manaus, Antarctica. Bebi durante 40 anos e deixei de beber para valer em 2008, mas uma vez ou outra bebo vinho ou Bohemia, ou Cerpinha.

Vou para casa. Em casa, olho para a pilha dos livros que estou lendo. O primeiro deles é Da Minha Janela – Crônicas da política brasileira (LGE Editora, Brasília, 2010), do jornalista André Gustavo Stumpf. Vou resenhá-lo. Também preciso ler História Desagradáveis, de Gladstone Machado de Menezes (LGE Editora, Brasília, 2010). Estou lendo em casa A Bíblia de Jerusalém, que me foi recomendada por Erwin Von-Rommel, autor de 100 Segredos (Zennex Publishing, São Paulo, 2003). À noite, na cama, leio a Verdade da Vida, volume 3 (Seicho-No-Ie do Brasil, 1962), de Masaharu Taniguchi. Quando vou para o trabalho, leio O livro dos espíritos (Instituto de Difusão Espírita, São Paulo, 1984), de Allan Kardec.

Coloquei ainda na pilha O Pequeno Príncipe (Agir, Rio de Janeiro, 1987), de Saint Exupéry. Li-o há muito tempo. Depois o li novamente, agora para minha filha, Iasmim, quando minha princesinha era um bebê. Lembro-me dos grandes olhos negros da Iasmim pousados em mim enquanto lia o livro, e nas ilustrações. Foi aí que comecei a chamar para minha princesinha de “meu bem”. E também foi Exupéry que me despertou para as coisas que não vemos com os olhos físicos, mas apenas com o coração.

Ao chegar em casa, vejo que chegaram dois volumes pelos Correios. Abro-os. Um é para eu entregar para o Joy Edson (José Edson dos Santos); o outro é para mim. Trata-se de Adoradores do Sol – Novo textuário do meio do mundo (Scortecci, São Paulo, 2010), de Fernando Canto. Fernando Canto é o escritor que melhor representa Macapá, a cidade que fica na esquina do maior rio do mundo, o Amazonas, com a Linha Imaginária do Equador. Macapá fica no mundo das águas, a meio caminho do Caribe e da Hileia. Vou mergulhar no texto de Fernando Canto, pois estou há muito tempo em Brasília.

A noite lá fora é azul escuro, tão azul que sangra.

Ray Cunha nasceu em Macapá/AP. Estreou na literatura em 1972, com o livro coletivo de poemas Xarda Misturada (edição dos autores, Macapá), juntamente com o poeta e contista José Edson dos Santos (Joy Edson) e José Montoril. Em 1982, a União Brasileira de Escritores, seção de Manaus, publicou Sob o céu nas nuvens, poemas.

Em 1990, Ray Cunha estreia na ficção, com A grande farra (edição do autor, contos, Brasília). Em 1996, a Editora Cejup, de Belém do Pará, publica o conto A caça e o romance O lugar errado. Em 2000, publica Trópico Úmido – Três contos amazônicos (Brasília, edição do autor) e, em 2005, a Editora Cejup volta a publicar um romance do escritor, A Casa Amarela.

Paralelamente à carreira de escritor, em 1975, Ray Cunha estreia no jornalismo como repórter policial do Jornal do Commercio de Manaus. Na Amazônia, trabalhou ainda, entre outros jornais, em A Crítica, de Manaus; Gazeta do Acre, de Rio Branco; e O Liberal e Diário do Pará, de Belém. Em Brasília, foi repórter, redator e editor de jornais como o Correio Braziliense e Jornal de Brasília. É editor do portal Conexão CPLP (http://www.conexaocplp.com.br/).

sábado, 21 de agosto de 2010

Céu - Cangote

3 Poemas Revisitados - José Edson dos Santos



Praia, Releitura "Antropofagia" de Tarsila do Amaral: Ravi Brito


Brasilírica Noite

Ipê amarelo
emoldurado na Esplanada
itinerário rumoroso até rodoviária
entre quebrada do Conic
divagações intermitentes

A dama dos antúrios
roda bolsinha grená
ao transitar passarela do pecado:
- Vem cá, coroa enxuto...
Vem fazê um programa maneiro em minha quitinete!

A lua emana
noturna melodia dos elementos
o sinal semafórico das horas avança

Estrela vésper medita
deixando um rastro
de metalinguagens
e aliterações cintilantes
no céu alto do Planalto Central

Praia Antropofágica

O Abaporu do rito indigesto
fugiu da mata multicultural galeria
levando a Negra dos lábios de açaí

Miscigenaram sob sol do Equador da dor
criando o eterno mito nativo de ser eterno
enquanto tropicaliente moderno cativo
com a praia antropofágica devorando o dia


Sexta Besta e Bastarda

Sexta-feira
da paixão mal resolvida

o vendavel acontece
na guarita da ilusão perdida

Tormenta
na besta
vida seresta

Sábado de aleluia
Judas Priest uva e vaia
com ferida sangrando

Sexta-feira do tempo
Morangos mofados

Cesta de catupiri
cuia de cuspir ditados

da vida
estúpida
tecendo drama
tafiá com thc

Sexta besta y
bastarda