domingo, 3 de outubro de 2010

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Oi Poema - Lançamento



Cristiane, Nicolas e Bic; (atrás:) Amneres, Turiba e Angélica, em foto de Eraldo Peres.

Poetas lançam sete livros em grande encontro literário e cultural. Dia 28/09, a partir de 18h, no Espaço Cultural Renato Russo, 508 Sul.

Demorou quase dois anos a gestação da Coleção OIPoema, que chega ao público no próximo dia 28, 3ª feira, no Centro de Criatividade 508 Sul. São seis livros de poetas de palavras: Luzidianas, de Angélica Torres Lima; Não vou mais lavar os pratos, de Cristiane Sobral, Poemas de um livro verde, de Bic Prado; Diário da Poesia em Combustão, de Amneres; Meiaoito de Luis Turiba; Bagaço da Laranja II, de Nicolas Behr, e junta-se ao grupo o poeta visual e gráfico Resa (Luis Eduardo Resende), com Miserere Nobis. Os livros saem com o selo da Produtora Sinhá, sob direção de Mônica Monteiro, por meio do apoio financeiro do FAC/Secretaria de Cultura do DF.

Além da ação de publicar e lançar os livros, o grupo OIPoema tomou a iniciativa de adotar escolas públicas de áreas carentes do DF, como contrapartida ao apoio recebido do Fundo de Apoio à Cultura (FAC-SECDF). Durante duas semanas de setembro, os poetas visitaram escolas de áreas carentes, doaram livros, fizeram recitais e breves conferências para os alunos. “A leitura cria a fantasia para a criança, além de ser uma forte ação social de ajuda no combate ao avanço do crack entre os nossos jovens”, afirma Luis Turiba, coordenador da coleção. Com esse princípio, os “Ois” poetas – que, aliás, atuam sem nenhum patrocínio de empresas de telefonia celular – acreditam poder fazer algo mais útil do que simplesmente doar uma cota da tiragem dos livros ao FAC, no acordo da contrapartida fixada pela Secretaria de Cultura do DF. (Divulgação OiPoema)

LANÇAMENTO DA COLEÇÃO OIPOEMA – Em 28 de setembro, terça-feira, a partir de 18h, no Espaço Cultural Renato Russo do Cento de Criatividade 508 Sul. Preço de capa unitário: R$ 20. Preço da coleção completa: R$ 70.

Coletivo de Poetas na Barca Brasília







A Barca Brasília Poética que sai do Cais da Concha Acústica, Setor de Hotéis e Turismo Norte, navegou pelo Lago Paranoá iluminada pela esplendorosa lua cheia do Planalto Central e ao sabor dos versos ditos e cantados pelo Coletivo de Poetas nos dias 25 e 26 de setembro. Participaram do sarau os poetas convidados, Basilina Pereira, José Edson dos Santos, Menezes y Morais e o músico e professor Fernando Machado. Imagens do passeio através do olhar fotográfico de Basilina Pereira.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

De tão azul, sangra - Ray Cunha


O sabiá da minha quadra começa sua armadilha de amor às 4h30. Acordo, às 5 horas, com seu canto. Ligo o abajour do criado mudo, visto-me, ponho um casaco e vou ao banheiro. Depois vou para a cozinha e preparo café Três Corações, gourmet. Bebo três xícaras de fumegante arábica com leite em pó, pãezinhos com manteiga ou doces. Faço minhas orações. São 6 horas. Os pássaros fazem algazarra na fria manhã de inverno tropical de altitude.

Ao sair de casa dou de cara com nova rosa no meu jardim. É uma pequena rosa amarela que se banha, sem prestar atenção a mim, ao sol redentor. Namoro-a. Ela continua seu banho, alheia ao mundo. As rosas são assim mesmo, só se importam com o sol. Mas eu gostaria de continuar perto dela apenas para a amar. Contudo, só beija-flores, borboletas e, claro, o sol e a brisa a tocam as rosas. E também mulheres que amam.

Parece que Deus arrumou a manhã para mim. As mangueiras estão grávidas e no ar pairam risos de crianças e tênues cheiros que lembram mulher com Chanel número 5 e mar. Certa vez, sentou-se ao meu lado, no ônibus, uma menina. Teria 14 anos. Tinha o encanto que todas as meninas têm. Perguntou-me onde ficava tal lugar – queria descer ali. Sosseguei-a. Disse-lhe que a avisaria quando ela deveria descer. Passado um pouco, ela cochilou e encostou a cabeça no meu ombro. Olhei-a. Dormia como uma criança. Procurei não me mexer até o ponto em que ela deveria descer. Acordei-a. Ela despertou sorrindo, agradeceu e se foi. Tinha a indiferença das rosas, mas, como as rosas, deixou um rastro tênue de cheiros.

Depois do trabalho, de volta a casa, paro no Big Bar, na 311 Sul, e peço uma Bohemia. Sabe-me enevoada. O rio da tarde murmura. A tarde se evola, se dilui. Os flocos negros da noite começam a cair. O sol se põe e os sons da tarde vão dando lugar à noite. Uma mulher passa na calçada. É uma linda mulher, que enobrece mais ainda os murmúrios do anoitecer.

Lembro-me, de repente, do Walmir Botelho, que me ensinou a transitar nas esquinas tumultuadas das redações dos jornais. O Walmir Botelho é diretor de redação de O Liberal de Belém do Pará. Quando vou a Belém, tomo meu banho noturno bebendo Cerpinha, e depois continuo bebendo Cerpinha e vendo a cidade, lá embaixo, da janela do hotel. Em Goiânia, bebo Brahma; no Rio de Janeiro, chopp da Brahma; em Manaus, Antarctica. Bebi durante 40 anos e deixei de beber para valer em 2008, mas uma vez ou outra bebo vinho ou Bohemia, ou Cerpinha.

Vou para casa. Em casa, olho para a pilha dos livros que estou lendo. O primeiro deles é Da Minha Janela – Crônicas da política brasileira (LGE Editora, Brasília, 2010), do jornalista André Gustavo Stumpf. Vou resenhá-lo. Também preciso ler História Desagradáveis, de Gladstone Machado de Menezes (LGE Editora, Brasília, 2010). Estou lendo em casa A Bíblia de Jerusalém, que me foi recomendada por Erwin Von-Rommel, autor de 100 Segredos (Zennex Publishing, São Paulo, 2003). À noite, na cama, leio a Verdade da Vida, volume 3 (Seicho-No-Ie do Brasil, 1962), de Masaharu Taniguchi. Quando vou para o trabalho, leio O livro dos espíritos (Instituto de Difusão Espírita, São Paulo, 1984), de Allan Kardec.

Coloquei ainda na pilha O Pequeno Príncipe (Agir, Rio de Janeiro, 1987), de Saint Exupéry. Li-o há muito tempo. Depois o li novamente, agora para minha filha, Iasmim, quando minha princesinha era um bebê. Lembro-me dos grandes olhos negros da Iasmim pousados em mim enquanto lia o livro, e nas ilustrações. Foi aí que comecei a chamar para minha princesinha de “meu bem”. E também foi Exupéry que me despertou para as coisas que não vemos com os olhos físicos, mas apenas com o coração.

Ao chegar em casa, vejo que chegaram dois volumes pelos Correios. Abro-os. Um é para eu entregar para o Joy Edson (José Edson dos Santos); o outro é para mim. Trata-se de Adoradores do Sol – Novo textuário do meio do mundo (Scortecci, São Paulo, 2010), de Fernando Canto. Fernando Canto é o escritor que melhor representa Macapá, a cidade que fica na esquina do maior rio do mundo, o Amazonas, com a Linha Imaginária do Equador. Macapá fica no mundo das águas, a meio caminho do Caribe e da Hileia. Vou mergulhar no texto de Fernando Canto, pois estou há muito tempo em Brasília.

A noite lá fora é azul escuro, tão azul que sangra.

Ray Cunha nasceu em Macapá/AP. Estreou na literatura em 1972, com o livro coletivo de poemas Xarda Misturada (edição dos autores, Macapá), juntamente com o poeta e contista José Edson dos Santos (Joy Edson) e José Montoril. Em 1982, a União Brasileira de Escritores, seção de Manaus, publicou Sob o céu nas nuvens, poemas.

Em 1990, Ray Cunha estreia na ficção, com A grande farra (edição do autor, contos, Brasília). Em 1996, a Editora Cejup, de Belém do Pará, publica o conto A caça e o romance O lugar errado. Em 2000, publica Trópico Úmido – Três contos amazônicos (Brasília, edição do autor) e, em 2005, a Editora Cejup volta a publicar um romance do escritor, A Casa Amarela.

Paralelamente à carreira de escritor, em 1975, Ray Cunha estreia no jornalismo como repórter policial do Jornal do Commercio de Manaus. Na Amazônia, trabalhou ainda, entre outros jornais, em A Crítica, de Manaus; Gazeta do Acre, de Rio Branco; e O Liberal e Diário do Pará, de Belém. Em Brasília, foi repórter, redator e editor de jornais como o Correio Braziliense e Jornal de Brasília. É editor do portal Conexão CPLP (http://www.conexaocplp.com.br/).

sábado, 21 de agosto de 2010

Céu - Cangote

3 Poemas Revisitados - José Edson dos Santos



Praia, Releitura "Antropofagia" de Tarsila do Amaral: Ravi Brito


Brasilírica Noite

Ipê amarelo
emoldurado na Esplanada
itinerário rumoroso até rodoviária
entre quebrada do Conic
divagações intermitentes

A dama dos antúrios
roda bolsinha grená
ao transitar passarela do pecado:
- Vem cá, coroa enxuto...
Vem fazê um programa maneiro em minha quitinete!

A lua emana
noturna melodia dos elementos
o sinal semafórico das horas avança

Estrela vésper medita
deixando um rastro
de metalinguagens
e aliterações cintilantes
no céu alto do Planalto Central

Praia Antropofágica

O Abaporu do rito indigesto
fugiu da mata multicultural galeria
levando a Negra dos lábios de açaí

Miscigenaram sob sol do Equador da dor
criando o eterno mito nativo de ser eterno
enquanto tropicaliente moderno cativo
com a praia antropofágica devorando o dia


Sexta Besta e Bastarda

Sexta-feira
da paixão mal resolvida

o vendavel acontece
na guarita da ilusão perdida

Tormenta
na besta
vida seresta

Sábado de aleluia
Judas Priest uva e vaia
com ferida sangrando

Sexta-feira do tempo
Morangos mofados

Cesta de catupiri
cuia de cuspir ditados

da vida
estúpida
tecendo drama
tafiá com thc

Sexta besta y
bastarda

quinta-feira, 22 de julho de 2010

LÍVIA - José Edson dos Santos



Angelina Jolie de Vernon


A cartografia da casa estava desenhada no inconsciente, nada tinha mudado. Em sua frente uma estante de mogno amarelo: poucos livros, cds, dvds, o aparelho de som e uma pequena televisão. Na parede lateral, as trepadeiras, a samambaia e as plantas sensitivas. O periquito que trouxera de Santarém, roia caroço de açaí em cima do trapézio improvisado sujando os ladrilhos da sala. Bem ao lado da janela que divagava ao infinito azul, mantinha como sortilégio a estatueta de uma índia marajoara e o quadro expressionista de Olivar Cunha. Ouvia agora, baixinho, Ella Fitzgerald, My Melancholy Baby. Lívia dormia tranqüila nas almofadas espalhadas. Acendeu um cigarro transgressor tragando a espiral do instante. Leva a mão esquerda ao queixo imberbe, remetendo à nostalgia do tempo em que dançava com Lívia no clube campestre do Leão do Norte. A orquestra tocava Os Românticos de Cuba perto da piscina onde os casais exercitavam suas coreografias calientes. Lívia sorria enigmática como Ártemis irradiando um luar encantador. Estrelas cadentes riscavam o céu.

Levantou da cadeira minimalista e foi até a cozinha. Abriu a geladeira na sôfrega vontade de alimentar a sua permissividade de fim de semana. Mastigar, engolir ou até mesmo beber o sólido do possível para dar caloria necessária a sua anatomia predadora. Escovou os dentes deixando um pouco do flúor na boca, uma delícia instantânea e fria na língua. De volta à sala instintivamente vislumbra os seios epicuristas colados na blusa branca de meia de Lívia. Ela indolente gata angorá manhosa se vira em cúbito dorsal. Começa a massagear carinhosamente toda extensão de suas costas, palmeando com lascívia a coluna cervical, vértebra por vértebra, até atormentá-la no arrepio da nuca que logo se alucina todo o corpo em frenesi, como no mito da carne fraca, a adorável carne fresca da luxúria. Acaricia com desejo e formigamento sua coxa desprevenida com um beijo úmido que vai deslizando um pouco acima da patela.

Assim se introduz na circunstância plausível, desenhando essa hora alada do corpo. Hipocampos nos olhos notívagos dilatados. Sempre sacou esses lances dos sentidos, dos gestos, da semiótica corporal da paixão como magia espontânea da natureza humana. Tamborilou os dedos na mesa de mosaico que Telma havia dado de presente à sua prima potiguar. Quase sodomizado, retorna em câmera lenta à sala onde Lívia resfolega como a deusa esplendorosa do Kama Sutra. Sente uma vaidade freudiana que condensara dos surrealistas. Com destreza afaga seus cabelos ondulados e belos como se recriasse histórias do inconsciente coletivo, do retorno a mitologia da adolescência com livros de Lewis Carrol, Mário Quintana, Kalil Gibran, Anais Nin e Herman Hesse. Não lembrava mais da barca atracada no porto de Santana nem dos ganidos perto do muro no quintal. O perdigueiro Rique dormia olhando à lua careca. Violinos urdiam harmonias celestiais nos mirabolantes devaneios que se perdiam no bosque Rodrigues Alves das antigas ilusões pueris. Lembranças da boemia no Laguinho das beatas de São Benedito, do rufianismo com as putas do Bar Caboclo nas noites etílicas de Macapá. Do outono passado em Belém, Icoaraci, Ilha do Cutijuba, ouvindo Hermético Sangue Sideral.

Jogou paciência com meticulosidade por algum tempo, pensando deixar para depois o sono de Camofeu exaurido sobre o corpo quedo de Lívia, para sentir bem de leve quando ele chega sem pedir licença, cumplicidade e dengo. Começa chover. Tece o vôo da imaginação povoado de elfos, neiredes e cogumelos alucinógenos. Pink Floyd tocando The Dark Side Of The Moon.

Fica um cenário acrílico de quem sonha com a noite indolente quando retoma seus mergulhos abissais. Quem sabe pela manhã tente retornar à página marcada do Fragmento do Discurso Amoroso. Lívia insistiu tanto para que lesse alguns ensaios de Roland Barthes e a História do Olho do George Bataille. Tudo esvaindo como Op Art do caleidoscópio sobre a mesa de mosaico que Telma esqueceu depois do jantar. Aquele momento assim mesmo. O silêncio se condensa em névoa e vultos distorcidos. Invenção de bocejos intermitentes na cartografia do silêncio da sala. Não podia prever absolutamente nada. Música no ar aprazível.