domingo, 16 de março de 2008



O artista cisma
que é marginal
mas não sabe
que o que lhe cabe
é o maior problema
de ser um Mandarim do sistema
líder antena
igual
talvez abaixo (eu acho)
apenas do cientista
na verdadeira lista
de importância
na sociedade da suprema ânsia
de ganância e extravagância
onde o cruel é o mel e a fragrância
e o terrível já começa na infância
o bebê nasce no hospital onde tem uma ambulância
a multidão te viu
na tevê
que te vê
e te viu
na Ti, vi
que é Tevê
em inglês
que todos nós
a esmo mesmo na escassez
se vê, não vê?
E que te antevê
e te fez tudo saber
ainda como bebê
ou até mesmo antes de nascer
sem saber raciocinar
ou aquela coisa
de escrever e ler
Bê! bê! bê!

Sirene da Ambulância
Jorge Mautner

Pela noite ela avança
com seu gemido de criança
vem como uma ponta de lança
é a sirene da ambulância
levando meu coração
narcotizado pro hospital da esperança!

“E a noite de verão caiu como se fosse
um doente narcotizado em cima da cama
de um hospital.” (T.S.Elliot)

sexta-feira, 14 de março de 2008

O tempo diz ser longe o mar

o poema perto a maré


garças piscívoras dançam

tuas corrossões de rede


e o poeta se abana


com leque de rabo de sereia


Paixão

Ramsés Ramos

Paixão ligeira

será essa a maneira?

Paixão vadia

onde tanto iria?

Paixão atroz

quem seria o algoz?

Paixão miúda

vezes mais aguda

Paixão suave

leve ave

Paixão amorosa

perfume da rosa

Paixão platônica

quase canônica

Paixão Suicída

morte em vida

Paixão mortal

luto, afinal

Paixão

movimento vão?

quarta-feira, 12 de março de 2008



http://www.beatrix.pro.br/literatura/baudelaire.htm-42k-

Dois Poemas em Flores do Mal
Charles Baudelaire

Música

A música me leva como um mar amargo!
À meu pálido astro,
sob um teto de bruma ou por éter largo,
iço a vela ao mastro

O peito para a frente e os pulmões já inflados
tal qual uma tela,
subo o dorso dos vagalhões amontoados
que a noite me vela

Sinto vibrar em mim o tropel das paixões
de uma nave sofrendo;
o bom vento, a tormenta e suas convulsões

Sobre o abismo horrendo me embalam.
Outra vez na calma ela é o reflexo
do meu ser perplexo.

Uma gravura Fantástica

Outro enfeite não tem este espectro faceto
a lhe dourar grotesco a fronte de esqueleto
senão diadema cruel de carnaval.
Sem espora ou chicote,exaure o seu bagual,
como ele fantasmal, rocim de bruxaria,
a narina a escorrer como na epilepsia,
e mergulham os dois pelo infinito espaço,
e calcam o amplo céu com seu incerto passo.
O cavaleiro estende um sabre que flameja
sobre as turbas sem nome e que assim esquarteja,
percorre como um rei, inspecionando a casa,
o cemitério imenso em que não arde brasa,
em que repousa à luz de um sol pálido e tenro
quanto povo existiu desde o antigo ao moderno.

domingo, 9 de março de 2008


Música, Henri Matisse
319 x 425 - 45k - jpg
http://pt.wikipedia.org/wiki/Categoria:Pinturas_de_Henri_Matisse-14k-

Todo Dia é Dia Dela
José Edson dos Santos


O mito de Eva nasceu da costela de Adão. Com ela surgiu o pecado original e o mistério que as Mulheres costumam produzir. Nos diferentes ritos da natureza humana, ela sabe que a vida é uma constante simbiose e que essa alquimia de viver, é o mais sagrado dos rituais. Ela é clarividente das estações em perfeita harmonia com os astros e constelações e se leva no movimento dos ventos, sentindo a chuva, contemplando os fenômenos da natureza no seu êxtase maravilhoso. Acolhe as florestas, os rios, os pássaros. Possibilita o sol e a lua que molduram sua janela de quintessência. Ela traduz um presente inesperado em nosso imaginário de amor e morte, de paixão e loucura. A humanidade conhece a substância de seu tecido. O perfume embriagador e fatídico de sua presença ao lado do homem concebeu Cleópatra, Lou Salomé, Anais Nin, Frida Kahlo, Olga Benário, Pagu, Luz Del Fuego, Elvira Pagã, Marisa Montini. São tantas outras que somam a luta de todos os dias por entre conquistas e sonhos, dos dias e das noites que testemunham e celebram esse mistério da existência. Agora, nesta diversidade cultural incomensurável, são tantas outras costelas: são putas, donas de casa, peruas, empresárias, beatas, porras-loucas, professoras e operárias. São imprescindíveis no entanto, as mulheres que tanto amamos. Como disse o cronista, Deus criou o mundo em seis dias, no domingo descansou e na segunda criou a Mulher. Ela é eternamente Mulher.

sábado, 8 de março de 2008



Zé Edson, Ivan Monteiro e Zé Ricardo
Poesia no Rauyela SCLS 413
Reminiscência

IVAN MONTEIRO

O jeito como aprendo
as palavras
já me é
quase um poema

Reminiscência, por exemplo
traduzi do mineiro antigo
como coisa que o menino
mais criança
faz

Recomposição

IVAN MONTEIRO

retratos, recados,
confraria de agrados
e atenções

flores, perfumes, bombons,
sabor de doce melancia

ela queria dar-me a vida
eu já tinha adormecido
à janela
já era
amarelecido de tristeza
já era mesmo mal gerido

sexta-feira, 7 de março de 2008