sexta-feira, 2 de maio de 2008

Coffee & Tv - BLUR

SOBRE CAFÉS E CIGARROS

Fernando de Castro

Prometi não falar mais de cigarro. Pega mal. Parece apologia. Também já prometi tentar parar de fumar. Ainda nem tentei. É sabido que o cigarro é o pior de todos os vícios. Falar de cigarros talvez seja o segundo pior, hoje em dia. É difícil soprar a fumaça a seco, fuzilado por olhares saudáveis, sem poder contra-argumentar com qualquer coisa positiva. O cigarro fede às narinas evoluídas, e não adianta forjar considerações que ressaltem a noção de aroma. Não existe safra de tabaco. Ninguém pede um maço de Marlboro vermelho ano 63. A fumaça escurece pulmões alheios. Somos assassinos de nós mesmos e de uma legião de futuros triatletas. O estado de acuamento é quase justo e reforça a impressão de que não duraremos muito tempo. Todo cigarro tem sabor de último cigarro. Nosso destino é a extinção, assim como aconteceu com o Minister Extra Mild e a ética petista.Comecei a fumar em 1996. Foi um ano e tanto para o Brasil. O frango virou herói nacional. FH nos chamou de caipiras. Morreram Renato Russo, Mamonas Assassinas e PC Farias. Maluf elegeu Celso Pitta prefeito de São Paulo. Em Ipanema, a moda eram os apitos nas rodas em que se fumava maconha, para avisar que a polícia se aproximava. Não me lembro do meu primeiro cigarro, mas sei que não foi em Ipanema e que ainda não se fazia necessário usar um apito antes de acendê-lo. Não era caso de polícia.O início dos anos 2000 pareceu uma época extremamente promissora para os novos tabagistas. Mal sabíamos que era o apagar das guimbas. Na Alemanha, fumava-se até em supermercado. Em Barcelona, em bares como o delicioso Oveja Negra, provocava-se: “Aceitam-se não-fumantes”, dizia a placa, numa versão bem mais politicamente incorreta do que a dos cafés portugueses da Ribeira, no Porto, onde as placas acusavam a proibição de se estudar no local. Foram nossos anos JK. Devíamos ter previsto que a dívida que nos esperava seria praticamente impossível de pagar.Certa vez o Zuenir, com toda a sua elegância, ao me ver acendendo um cigarro, sugeriu que eu fazia besteira. O Zuenir sabe das coisas. Tentei ser espirituoso, que é a forma mais honrada de se falar asneiras e justificar fraquezas. Disse que apostava na medicina. No fundo, fazia um bem para a sociedade. A ciência precisava de tipos como eu. Só assim alcançaríamos a cura para as doenças potencializadas pelo consumo do cigarro. Não pretendia uma placa ou estátua quando esse dia chegasse. Nada de monumentos em homenagem ao fumante desconhecido. Tragava pelo bem da humanidade. Eu era assim, um abnegado. Zuenir riu. O Zuenir é um ex-fumante elegante.O golpe definitivo contra nossa espécie foi essa lei que proíbe o consumo de cigarros em cafés, bares, restaurantes, farmácias ou qualquer outro estabelecimento que venda produtos de necessidade fundamental ao ser humano, como café, chope, bife à milanesa e desodorante. Foi o primeiro passo rumo a nossa anti-sociabilidade definitiva. Nosso prazer hoje está nos pequenos momentos. Aqueles em que nos vemos autorizados a desviar da lei, com a conivência indireta dos nossos inimigos – ou seja, os não-fumantes inveterados, a espécie que mais cresce no Brasil.Meu único grande momento se deu há algumas semanas. Teve como palco um dos melhores cafés-restaurantes-livrarias da Zona Sul, cujo rigor da lei se faz enxergar nas diversas placas espalhadas por todas as suas dependências. Já recusava o endereço há algum tempo, pelo óbvio motivo de que não se podia mais fumar ali. Até que certa noite eu encontrei o Antônio Torres na porta. Chamou-me para um café, ao que fiz menção de recusar, mas o bom senso me avisou que um café com o Torres seria agradável até sem as necessárias doses de nicotina que o líquido exige.Casa lotada, mesa central, o Torres não tardou dois minutos para acender um cigarro. Esperei pela reação dos outros clientes, convicto de que as primeiras queixas não demorariam. Mal sabia eu do prestígio do grande escritor. Sempre que alguém acusava o gesto de irritação, espiava a origem daquela fumaça e, permissivo com o vício do autor de Meu querido canibal, recolhia-se ao seu prato, numa das maiores manifestações de respeito que já vi um não-fumante praticar. Foi lindo. Fui de carona, no prestígio do Torres. Fumamos à beça, feito dois Cunhambebes entre tantos colonizadores. E, contrariando toda história recém-escrita, saímos de lá como vencedores.
(Artigo publicado no Jornal do Brasil, em 18/07/2006)

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Meu Maio


http://images.google.com.br/images?hl=pt-BR&q=Guttuso+e+a+feira


Meu Maio

Vladimir Maiakovski

A todos
Que saíram às ruas
De corpo-máquina cansado,
A todos
Que imploram feriado
Às costas que a terra extenua –
Primeiro de Maio!
Meu mundo, em primaveras,
Derrete a neve com sol gaio.
Sou operário –
Este é o meu maio!
Sou camponês - Este é o meu mês.
Sou ferro –
Eis o maio que eu quero!
Sou terra –
O maio é minha era!

Flor de Maio

José Edson dos Santos

Flor da quintessência
até a borboleta
voa serena
em teu ser


Chuva do Cerrado

José Edson dos Santos

Chove leve
lava Brasília lívida
lânguida


Abre espartilho
cinzento da noite
barca solidão partida

Brilho no olho néon
costura o silêncio
na poça d’água serena

Comove ave leviatã
como nau luspicínica
sob falena inconsútil

Chove leve
lava Asa Norte fútil
sonata breve leviana

quinta-feira, 17 de abril de 2008

BREU - Microcontos de GERALDO LIMA


Hiedy de Hassis Corrêa -Murais da Trindade

http://www.dac.ufsc.br/artes_visuais_humanidade_jornal.php



Fatalidade I


Não esperavam que ela gritasse. As mãos de Jorginho estavam trêmulas e, com aquele grito, entraram em pânico.
Torvelinho de braços, pernas, dentes e urros.

Delirium


Não sei se ela está gozando ou morrendo. Esses estertores me alucinam, ateiam fogo na minha carne: sem piedade, vou penetrando cada vez mais. Meus ouvidos, moucos, obliterados pelas areias do nada. O último grito ecoa num deserto banhado de sangue.

O inesperado


Fazia tempo que não nos víamos. Ela tentou ainda correr o ferrolho. Inútil. Com a ponta do sapato impedi que fechasse a porta. Recuou aterrada, desintegrada pelo medo. Entrei. Desliguei a luz e avancei dentro do breu.

Sanctus


Deus não aprovaria isso, essa carne devassa, esse sexo exposto, faminto sempre. Só a morte lhe trará a verdadeira satisfação. Eu curo os doentes, amanso os
loucos, dou descanso aos desenganados. Deus anda comigo pelos caminhos mais turvos. E agora estamos aqui, junto ao seu leito enfermo, o coração repleto de amor e piedade.

Depois daquele ato


O que estava acontecendo não tinha explicação. A mão movera-se por si mesma. Mas quem acreditaria nisso? Louco, louco. O dia cinza, a cidade medonha, a vida absurda. Deus estivera com ele durante algum tempo; agora, as trevas. A mão movera-se sozinha: um gesto cruel, manchado de sangue. Insana, gravara em sua memória grafismos de horror e desordem.

Ali


Sou um filho da puta, não nego. Sou uma falha da natureza. Mas, já que nasci, então faço valer. Remorso? Não, não. Não sei o que é piedade. Matar é o meu orgasmo. Vivo no breu, ainda que haja luz. É, a senhora é uma mulher corajosa, estou admirando. Não tem medo da morte... Aqui, comigo, sem nada que a proteja. O que tanto vasculha em mim? Algum vestígio de Deus?

Macega


A gente avançou no meio do escuro, rumo ao lugar de onde vieram os gritos. Meu pai indo adiante, só coragem, medo nem de Deus nem do diabo. Eu indo bem no meio, dominado pelo terror. Por que estávamos indo até lá? Para a memória carregar pra sempre o charco de sangue, a ruína do corpo?
Meu pai avançava, sem fome de perguntas, senhor do nada.


Ana


Sei que vai se agarrar nas minhas pernas me pedindo pra ficar. Por enquanto tá lá na cozinha, deixando cair panelas, talheres... Quer me fazer ouvir o seu desespero. Não pode viver sem mim. Mas, minha mente já não está mais aqui, que posso fazer? Fecho a porta, ouvindo ainda os seus gemidos de dor. Melhor assim. Teria sido ridículo vê-lo atirando-se aos meus pés.

Breu


O desespero é um abismo: a pessoa age sem fio algum de razão. Naquele momento, bastava ter se acendido uma luzinha na minha mente, para que o mal se esgarçasse. Eu avançava no breu. Veja, o ódio é uma coisa medonha, absurda, cegante. Depois do último estalido, o cheiro de pólvora — meu corpo recuou vazio, uma coisa oca, sem sentido, como se morresse.

Dança ( ou Almodóvar)


Ambos se movendo no círculo de fogo, devorados pelo desejo. Dois estranhos, quase. Ravel inundando a sala, os corpos. Um minuto antes, pensara em fugir; mas agora, presa ao ímã do olhar, deixava-se arrastar até o olho do furacão. Parecia tão manso, outra espécie de homem; súbito, porém, crispou os lábios, e a mão cortou o ar, dilacerando o encanto.


Geraldo Lima
(gera.lima@brturbo.com.br)

quinta-feira, 10 de abril de 2008

4 Poemas Perdidos - José Edson dos Santos




Nelson Screnzi - Metamorfose dos Escluídos

Merengue

José Edson dos Santos

Sexta-feira
da paixão mal resolvida

o vendaval acontece
na guarita da ilusão

Tormenta
na besta
da vida seresta

Sábado de aleluia
Judas Priest uva e vaia
como ferida sangrando

Sexta-feira do tempo
da ilusão perdida

Sem essa de cuspir
na cuia da serenata

da vida
estúpida
como
tafiá
thc

Esperar o Trem

A tarde
não tarda
esperar o trem

Todo presságio
do adágio mineiro
adverte

O trem é bom...

Pomar

Sem nabo
couve-flor
e brócolis
o bacana do pomar
traz capim banto

A cultura popular
milagreira e santa
planta a erva cidreira

Contra panema e tédio


Night no Conic

Dromedários notívagos
desancando clarinetas
doidivanas &
vesgas
pelos inferninhos
intermitentes do Conic

O bardo bebe acrósticos
escapando pelo banheiro
da medusa obtusa
um relicário de tetas

cabernet e voragem

O recruta de ressaca
saca tudo pendurado
no pescoço do traveca
traficante cocaine
Glória Gaynor
e sortilégios

sábado, 5 de abril de 2008

RUBEM VALENTIM

Emblema 88 tinta acrílica sobre tela, ass. dat. 1988
titulado e situado Brasília no verso41 x 27 cm.
Rubem Valentim partiu de uma pintura que revelaria, no começo, fortes influências parisienses; mas, olhando para dentro de si mesmo em meados da década de 1950 passou a utilizar, como matéria-prima do seu fazer estético, sua ancestralidade africana, o atavismo negro a que se referiria em 1966 o crítico italiano Giulio Carlo Argan, para quem a arte do brasileiro corresponderia a uma "recordação inconsciente de uma grande e luminosa civilização negra anterior às conquistas ocidentais".

Manifesto, ainda que tardio
O artista divulgou em 1976 importante documento em que explicava as origens de sua arte e as metas a que aspirava, intitulando-o adequadamente Manifesto Ainda que Tardio, e do qual extraímos algumas significativas passagens:
«Minha linguagem plástico-visual signográfica está ligada aos valores míticos profundos de uma cultura afro-brasileira (mestiça-animista-fetichista).
«Meu pensamento sempre foi resultado de uma consciência de terra, de povo. Eu venho pregando há muitos anos contra o colonialismo cultural, contra a aceitação passiva, sem nenhuma análise crítica, das fórmulas que nos vêm do exterior - em revistas, bienais, etc. E a favor de um caminho voltado para as profundezas do ser brasileiro, suas raízes, seu sentir. A arte não é apanágio de nenhum povo, é um produto biológico vital.»

VICENTE HUIDOBRO



Vicente Huidobro (1893-1948), nascido em Santiago do Chile, filho de família aristocrática e rica, é bem pouco conhecido no Brasil. Em matéria de poesia chilena, o repertório médio brasileiro não vai além de Pablo Neruda e Gabriela Mistral. Se muito, incluí Nicanor Parra. No entanto, em meio a pequeno grupo de conhecedores, formados por poetas e amantes de poesia, Huidobro é amado – e seu prestígio aí, como fabro e teórico, é bem maior que o de Neruda e Mistral juntos. O ideólogo do criacionismo, que caminhou luminosamente da estética romântica para a maré de fogo das vanguardas do início do século XX, converteu-se, no âmbito desse cículo reduzido e exigente, em ponto fundamental de referência, em marco inaugural da nova poesia hispano-americana, instaurando a modernidade poética em meio aos nossos companheiros-de-viagem continentais. E nada mais certo. Antes que timidez ou prudência, o que encontramos em Huidobro, espírito ousado e independente, irrequieto até a medula, é o desejo, ou melhor dizendo, a ânsia de inovar. A novidade era, para ele, uma necessidade - e uma obsessão. Não por acaso ele criou o criacionismo, paroxismo da procura do novo. (Antonio Risério, em Huidobro: A Poesia Como Atentado Celeste).
“O grande poema de Huidobro é Altazor: o açor no avanço das alturas e que desaparece queimado pelo sol. As palavras perdem seu peso significativo e tornam-se, mais que signos, marcas de uma catástrofe estelar. Na figura do aviador-poeta reaparece o mito romântico de Lúcifer” ( Octávio Paz )
“A importância de Huidobro, como poeta e como teórico da poesia, é fundamental, para quem queira pensar no problema da renovação dos meios poéticos na América Espanhola” ( Haroldo de Campos )

Arte Poética

Que o verso seja como uma chave
que abra mil portas.
Uma folha cai; algo passa voando;
o que os olhos enxerguem, criado seja,
e que a alma do ouvinte fique a tremer.

Inventa novos mundos e cuida de tua palavra;
o adjetivo, quando não dá vida, mata.

Estamos no ciclo dos nervos,
o músculo pende,
como lembrança, dos museus;
mas nem por isso teremos menos força:
o vigor verdadeiro
reside na cabeça.

Por que cantais a rosa, ó Poetas!
Fazei-a florescer no poema;
apenas para nós
vivem as coisas sob o Sol.

O poeta é um pequeno Deus.


Ao Ouvido do Tempo

(Fragmento)

Tenho grandes ânsias e vergonhas de tudo
como uma hora que pára e pede pão
como aquele que não pode dizer o que quer
enterrado no fundo de sua raça