sexta-feira, 2 de maio de 2008
Fernando de Castro
quinta-feira, 1 de maio de 2008
Meu Maio

http://images.google.com.br/images?hl=pt-BR&q=Guttuso+e+a+feira
Meu Maio
Vladimir Maiakovski
A todos
Que saíram às ruas
De corpo-máquina cansado,
A todos
Que imploram feriado
Às costas que a terra extenua –
Primeiro de Maio!
Meu mundo, em primaveras,
Derrete a neve com sol gaio.
Sou operário –
Este é o meu maio!
Sou camponês - Este é o meu mês.
Sou ferro –
Eis o maio que eu quero!
Sou terra –
O maio é minha era!
Flor de Maio
José Edson dos Santos
Flor da quintessência
até a borboleta
voa serena
em teu ser
Chuva do Cerrado
José Edson dos Santos
Chove leve
lava Brasília lívida
lânguida
Abre espartilho
cinzento da noite
barca solidão partida
Brilho no olho néon
costura o silêncio
na poça d’água serena
Comove ave leviatã
como nau luspicínica
sob falena inconsútil
Chove leve
lava Asa Norte fútil
sonata breve leviana
quinta-feira, 17 de abril de 2008
BREU - Microcontos de GERALDO LIMA

Hiedy de Hassis Corrêa -Murais da Trindade
http://www.dac.ufsc.br/artes_visuais_humanidade_jornal.php
Fatalidade I
Não esperavam que ela gritasse. As mãos de Jorginho estavam trêmulas e, com aquele grito, entraram em pânico.
Torvelinho de braços, pernas, dentes e urros.
Delirium
Não sei se ela está gozando ou morrendo. Esses estertores me alucinam, ateiam fogo na minha carne: sem piedade, vou penetrando cada vez mais. Meus ouvidos, moucos, obliterados pelas areias do nada. O último grito ecoa num deserto banhado de sangue.
O inesperado
Fazia tempo que não nos víamos. Ela tentou ainda correr o ferrolho. Inútil. Com a ponta do sapato impedi que fechasse a porta. Recuou aterrada, desintegrada pelo medo. Entrei. Desliguei a luz e avancei dentro do breu.
Sanctus
Deus não aprovaria isso, essa carne devassa, esse sexo exposto, faminto sempre. Só a morte lhe trará a verdadeira satisfação. Eu curo os doentes, amanso os
loucos, dou descanso aos desenganados. Deus anda comigo pelos caminhos mais turvos. E agora estamos aqui, junto ao seu leito enfermo, o coração repleto de amor e piedade.
Depois daquele ato
O que estava acontecendo não tinha explicação. A mão movera-se por si mesma. Mas quem acreditaria nisso? Louco, louco. O dia cinza, a cidade medonha, a vida absurda. Deus estivera com ele durante algum tempo; agora, as trevas. A mão movera-se sozinha: um gesto cruel, manchado de sangue. Insana, gravara em sua memória grafismos de horror e desordem.
Ali
Sou um filho da puta, não nego. Sou uma falha da natureza. Mas, já que nasci, então faço valer. Remorso? Não, não. Não sei o que é piedade. Matar é o meu orgasmo. Vivo no breu, ainda que haja luz. É, a senhora é uma mulher corajosa, estou admirando. Não tem medo da morte... Aqui, comigo, sem nada que a proteja. O que tanto vasculha em mim? Algum vestígio de Deus?
Macega
A gente avançou no meio do escuro, rumo ao lugar de onde vieram os gritos. Meu pai indo adiante, só coragem, medo nem de Deus nem do diabo. Eu indo bem no meio, dominado pelo terror. Por que estávamos indo até lá? Para a memória carregar pra sempre o charco de sangue, a ruína do corpo?
Meu pai avançava, sem fome de perguntas, senhor do nada.
Ana
Sei que vai se agarrar nas minhas pernas me pedindo pra ficar. Por enquanto tá lá na cozinha, deixando cair panelas, talheres... Quer me fazer ouvir o seu desespero. Não pode viver sem mim. Mas, minha mente já não está mais aqui, que posso fazer? Fecho a porta, ouvindo ainda os seus gemidos de dor. Melhor assim. Teria sido ridículo vê-lo atirando-se aos meus pés.
Breu
O desespero é um abismo: a pessoa age sem fio algum de razão. Naquele momento, bastava ter se acendido uma luzinha na minha mente, para que o mal se esgarçasse. Eu avançava no breu. Veja, o ódio é uma coisa medonha, absurda, cegante. Depois do último estalido, o cheiro de pólvora — meu corpo recuou vazio, uma coisa oca, sem sentido, como se morresse.
Dança ( ou Almodóvar)
Ambos se movendo no círculo de fogo, devorados pelo desejo. Dois estranhos, quase. Ravel inundando a sala, os corpos. Um minuto antes, pensara em fugir; mas agora, presa ao ímã do olhar, deixava-se arrastar até o olho do furacão. Parecia tão manso, outra espécie de homem; súbito, porém, crispou os lábios, e a mão cortou o ar, dilacerando o encanto.
Geraldo Lima
(gera.lima@brturbo.com.br)
quinta-feira, 10 de abril de 2008
4 Poemas Perdidos - José Edson dos Santos
Nelson Screnzi - Metamorfose dos Escluídos
Merengue
Sexta-feira
da paixão mal resolvida
o vendaval acontece
na guarita da ilusão
Tormenta
na besta
da vida seresta
Sábado de aleluia
Judas Priest uva e vaia
como ferida sangrando
Sexta-feira do tempo
da ilusão perdida
Sem essa de cuspir
na cuia da serenata
da vida
estúpida
como
tafiá
thc
Esperar o Trem
A tarde
não tarda
esperar o trem
Todo presságio
do adágio mineiro
adverte
O trem é bom...
Pomar
Sem nabo
couve-flor
e brócolis
o bacana do pomar
traz capim banto
A cultura popular
milagreira e santa
planta a erva cidreira
Contra panema e tédio
Night no Conic
Dromedários notívagos
desancando clarinetas
doidivanas &
vesgas
pelos inferninhos
intermitentes do Conic
O bardo bebe acrósticos
escapando pelo banheiro
da medusa obtusa
um relicário de tetas
cabernet e voragem
O recruta de ressaca
saca tudo pendurado
no pescoço do traveca
traficante cocaine
Glória Gaynor
e sortilégios
sábado, 5 de abril de 2008
RUBEM VALENTIM
Manifesto, ainda que tardio
VICENTE HUIDOBRO
“O grande poema de Huidobro é Altazor: o açor no avanço das alturas e que desaparece queimado pelo sol. As palavras perdem seu peso significativo e tornam-se, mais que signos, marcas de uma catástrofe estelar. Na figura do aviador-poeta reaparece o mito romântico de Lúcifer” ( Octávio Paz )
“A importância de Huidobro, como poeta e como teórico da poesia, é fundamental, para quem queira pensar no problema da renovação dos meios poéticos na América Espanhola” ( Haroldo de Campos )
que abra mil portas.
Uma folha cai; algo passa voando;
o que os olhos enxerguem, criado seja,
e que a alma do ouvinte fique a tremer.
Inventa novos mundos e cuida de tua palavra;
o adjetivo, quando não dá vida, mata.
Estamos no ciclo dos nervos,
o músculo pende,
como lembrança, dos museus;
mas nem por isso teremos menos força:
o vigor verdadeiro
reside na cabeça.
Por que cantais a rosa, ó Poetas!
Fazei-a florescer no poema;
apenas para nós
vivem as coisas sob o Sol.
O poeta é um pequeno Deus.
como uma hora que pára e pede pão
como aquele que não pode dizer o que quer
enterrado no fundo de sua raça
