sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Negras Poesias e Itamar Assumpção - Luzia



ESCOVA PROGRESSIVA?
Cristiane Sobral (Nasceu no Rio de Janeiro, em 1974, e reside em Brasília desde 1990. Como escritora, possui poemas e contos publicada na Antologia Cadernos Negros, edições 23, 24, e 25. Graduada como atriz habilitada em Interpretação Teatral pela Universidade de Brasília, sendo a primeira negra a ganhar o título acadêmico. http://crisobral.sites.uol.com.br/)

Se a raiz é agressiva
Escova progressiva
Se a raiz é agressiva
Escova progressiva
Aí!
Eu tenho medo do formol!
Eu tenho medo do formol
Abaixo a chapinha no cabelo da neguinha
Abaixo a chapinha no cabelo da neguinha
Abaixo, abaixo, abaixo!


PIXAIM ELÉTRICO
Cristiane Sobral

Naquele dia
Meu pixaim elétrico gritava alto
Provocava sem alisar ninguém
Meu cabelo estava cheio de si

Naquele dia
Preparei a carapinha para enfrentar
a monotonia da paisagem da estrada
Soltei os grampos e segui, de cara pro vento, bem desaforada...
Sem esconder volumes nem negar raízes.

Pura filosofia
Meu cabelo escuro, crespo, alto e grave...
Quase um caso de polícia em meio à pasmaceira da cidade
Incomodou identidades e pariu novas cabeças

Abaixo a demagogia
Soltei as amarras e recusei qualquer relaxante
Assumi as minhas raízes ainda que brincasse com alguns matizes
Confrontando o meu pixaim elétrico com as cores pálidas do dia.


BOTE
Cuti (Luiz Silva Cuti é escritor, Mestre em Teoria da Literatura e doutorando no Instituto de Estudos da Linguagem - UNICAMP. Publicou, dentre outros, Flash Crioulo sobre o Sangue e o Sonho (poemas - 1987) Quizila (contos - 1987), Dois Nós na Noite (teatro -1991) e Negros em Contos (1996).

aos que ainda caçam
escravos
meu cuspe de desacato
e o fogo de fato
a derreter abismos
chego ao coração do
suicídio
e não me mato
liberto noite s repletas de gatos
e salto
com sete vidas
afiadas unhas
na jugular dos palhaços

NAÇÃO INUSITADA
Cuti


em festa rodopiem o desejos
este beijo é mais
que o ensejo
do sexo

mundos em melanina se fundem no afeto
reencontro de rios perdidos
selvas
sagas
mares temperados com africanas algas
eletrizantes peixes pretos
e seus volts de memória
atávica

neste encontro de fontes
ontens em lábios-romã celebram
orgasmos intensos de amanhãs passíveis
e os deuses deixam-se os poros abertos
neste ir e vir
de ancestrais suores

OXUM
Jorge Amâncio (Carioca, nasceu em 1953 e reside em Brasília desde 1976. Licenciado em Física pela Universidade de Brasília, professor da Fundação Educacional do Distrito Federal, participante e ativista de movimentos sociais de luta contra o preconceito racial. Começou a publicar seus textos poéticos no jornal Raça do M.N.U. (Movimento Negro Unificado), no início dos anos 80. É responsável, com Marcos Freitas, pela organização do evento Poemação no auditório da Biblioteca Nacional de Brasília, desde meados de 2009).


Oh! Sol da beleza!
Rainha dos raios!
De Ogum, Oruminlá e Oxossi
Segunda de Xangô

Fertilize a terra
Sêmen que tens
no ventre de luz
abrangente de paz

Oh! Sol, rainha!
Oxum beleza

NEGRO SAFADO
Jorge Amâncio

Eta negro safado
Um novo tarado
Pancada ao troco

Êta negro safado!
- Olha a rua
Negro de rua
- Fecha o trânsito
- Tranca rua

Êta negro safado
Que fica calado
Braços cruzados
se lado a tudo
sem conteúdo

Êta negro safado!
- Entra pelos fundos
Elevador de serviço
- Um sorriso
- sim doutor

Êta negro safado!
- É um assalto!
De dentes cerrados
- É uma arma!
De pernas lonhas
- É a polícia!

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A morte em poesia



Angélica T.Almstadter

http://www.overmundo.com.br/banco/a-morte-4



xfavelagrindx.blogspot.com/2008/11/dia-dos-mo...

Os Mortos (Abel Silva)

Deixem os mortos, eles não se levantam mesmo
me diz pela boca e narinas
o poeta Bob Dylan.
Mas os mortos se levantam sempre
( alguns sequer se deitam )
atravessam o ritmo das culturas
requentam o mormaço dos remorsos
azedam o estio das paixões.
A cada notícia da violência
de todos os dias
um morto toca a tua fronte
outros erigem monumentos a outros mortos
comandam exércitos
impingem o hálito podre às narinas indefesas
hipnotizam auditórios
disparam carros
abortam utopias
escrevem em jornais.
Difundir a morte
é a sua alegria
no seu ofício trabalham
noite e dia
e não se cansam
jamais

Madalena Sem Panos (Nauro Machado)

O morto requer precisa
de espelho para o seu rosto.
Nenhum espelho dispõe
dos olhos já tão translúcidos

do morto. Do morto que, além,
destituído de corpo,
jamais precisa de corpo,
jamais precisa de espelho
para olhar sequer seu rosto.

Todo dia é dia D (Torquato Neto)


Desde que saí de casa
trouxe a viagem da volta
gravada em minha mão
Enterrada no umbigo
dentro e fora assim comigo
minha própria condução
Todo dia é dia dela
pode não ser pode ser
abro a porta e a janela
Todo dia é dia D
Há urubus nos telhados
e a carne-seca é servida
um escorpião encravado
na sua própria ferida
não escapa, só escapo
pela porta da saída
Todo dia é o mesmo dia
de amar-te, amorte, morrer
Todo dia menos dia
mais dia é dia D

Véspera do dia dos mortos (Luís Antonio Cajazeira Ramos)


Eu não amei meu pai como devia.
Houve o dia de amá-lo e não o amei.
Ele morreu, e não nasci ainda.
Amanhã levantei sem seu amor.

Nenhum conselho amigo soa seu.
Uma vida padrasta me acompanha.
Meu caminho não quis olhar pra trás.
Tão longe de meu pai me abandonei.

Nem meu, nem de ninguém, nunca fui seu.
Não me quis dar a quem eu estranhava.
Só teu colo, mamãe, era aconchego.

Do pai, resta-me um calo de silêncios.
Ai, arranco do peito o corpo estranho.
Coração, cava o chão, busca meu pai.

Os mortos riem...(Robson Sampaio)

No Dia dos Mortos,
os mortos riem do choro
e das rezas dos vivos,
lamúrias perturbadoras
da paz e do silêncio
do Campo Santo.

Os mortos riem tal qual
hienas: sorrisos permanentes...
Mas, os vivos choram e choram,
rezam e rezam, enquanto os mortos
riem, riem e até gargalham...

Os mortos riem,
no Dia dos Mortos, ou não.
Tal qual hienas: sorrisos permanentes,
escárnio dos vivos-sobreviventes e mortos-vivos,
rotina da vida eternamente...

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Almira Rodrigues: Afetos & Palavras



Salvador Dali - Metamorfose de Narciso
Almira Rodrigues nasceu no Rio de Janeiro, em 13 de setembro de 1953. Filha de parnaibanos foi ficando um pouco piauiense. Morou em Belo Horizonte por muitos anos e desenvolveu também um jeito mineiro de ser. Em Brasília passou o maior tempo de sua vida. Aqui teve seu filho e depois ganhou duas netas. Formou-se em Sociologia pela UnB, onde fez seus estudos de pós-graduação. Em sua dissertação de mestrado desenvolveu uma análise sociológica sobre as relações amorosas e na tese de doutorado pesquisou sobre cidadania e políticas públicas no âmbito das relações afetivo-sexuais. Trabalhou com políticas sociais em instituições públicas e integrou a ONG Centro Feminista de Estudos e Assessoria - CFemea. Atualmente faz formação psicanalítica no Instituto de Psicanálise Virgínia Leone Bicudo, da Sociedade de Psicanálise de Brasília. Publicou Afetos & Palavras (Poesias), Editora Abaré. Brasília, 2009.

Para o poeta Luiz Turiba, “Palavra é a ferramenta, o batom na boca desta carioca-mineira-brasiliense que herda em seus poemas uma certa síntese cínica & mineiríssima de Adélia, uma sabedoria à moda antiga de Cora e/ou uma transcendência juvenil de Ana Cristina Cesar. Foi nessa pescaria que ela criou seu poemário.”

a
comodações

acomodo palavras em afetos
acomodo afetos em palavras
e ainda assim
faltam palavras e sobram afetos


bordado

desejo atravessado
contido
engasgado
não desce
nem vai embora
fica ali
enquanto isso
gestos trans/bordam

centroavante

minha história de amor não começa com você
você não é o início
e provavelmente não será o fim
mas de certo
hoje você é o centro

desejo

você esteve de passagem
deixou o alimento
e o desejo à vista
pendurado no varal
fico embebida por seus movimentos
crio linhas e linhas de caminhos até você
fico toda enrolada
bom será
que você também
fique enrolado em mim

espelhos

fostes um grande espelho
também fui
em nossas andanças de alargamento e vastidão
nos enxergamos um no outro
e no entanto
queríamos ser mais do que espelhos

fantasmas

alguns afetos
precisam de palavras para tomar corpo
senão viram fantasmas

pinturas

pedaços de dor em chamas
camadas infinitas de véus
sonhos sonâmbulos
formas disformes
corpos contorcidos
desertos grutas crateras
suas pinturas em mim

21

bichos me habitam
aparecem de noite
de dia se recolhem

69

virar poeta
é abrir uma loucura branda

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Poesias em Ser Criança




http://waldartesvisuais.blogspot.com/2010/08/achados...

Como disse um poeta ponta de lança de minha infância, “como é bom voltar a ser criança”. Reviver o período de encanto e ternura, descobertas e aprendizagens significativas no universo mágico da existência. A arte sempre teceu um manto imaginário de significados da infância. A música e a poesia ampliaram essa quintessência de cântico e clamor com imagens que ficaram flutuando em nossos sonhos. Assim como poetaram Cecília Meireles, Henriqueta Lisboa, Vinícius de Moraes, Mário Quintana e Zeca Baleiro, velhos sonhos de infância.

OU ISTO OU AQUILO (Cecília Meireles)
Ou Isto ou Aquilo Ou se tem chuva e não se tem sol
ou se tem sol e não se tem chuva! Ou se calça a luva e não se põe o anel,
ou se põe o anel e não se calça a luva!
Quem sobe nos ares não fica no chão,
quem fica no chão não sobe nos ares.
É uma grande pena que não se possa
estar ao mesmo tempo em dois lugares!
Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,
ou compro o doce e gasto o dinheiro.
Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo...
e vivo escolhendo o dia inteiro!
Não sei se brinco, não sei se estudo,
se saio correndo ou fico tranqüilo.
Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.

No último andar é mais bonito:/do último andar se vê o mar./É lá que eu quero morar./ O último andar é muito longe:/ custa-se muito a chegar./
Mas é lá que eu quero morar./Todo o céu fica a noite inteira/
sobre o último andar/É lá que eu quero morar./
Quando faz lua no terraço/fica todo o luar./ É lá que eu quero morar./
Os passarinhos lá se escondem/para ninguém os maltratar:/no último andar.
De lá se avista o mundo inteiro:/ tudo parece perto, no ar./
É lá que eu quero morar:/ no último andar.

O MENINO POETA (Henriqueta Lisboa)
O menino poeta/não sei onde está/procuro daqui/procuro de lá/tem olhos azuis/ou tem olhos negros?/Parece Jesus/ou índio guerreiro?
Ai! que esse menino/será, não será?/procuro daqui/procuro de lá.
O menino poeta/quero ver de perto./Quero ver de perto/para me ensinar/as bonitas coisas/do céu e do mar.

A CASA (Vinicius de Moraes)
Era uma casa
Muito engraçada
Não tinha teto
Não tinha nada
Ninguém podia
Entrar nela não
Porque na casa
Não tinha chão
Ninguém podia
Dormir na rede
Porque na casa
Não tinha parede
Ninguém podia
Fazer pipi
Porque penico
Não tinha ali
Mas era feita
Com muito esmero
Na Rua dos Bobos
Número Zero

DORME RUAZINHA… É TUDO ESCURO!…(Mário Quintana)

Dorme ruazinha… É tudo escuro…
E os meus passos, quem é que pode ouvi-los?
Dorme teu sono sossegado e puro,
Com teus lampiões, com teus jardins tranqüilos…

Dorme… Não há ladrões, eu te asseguro…
Nem guardas para acaso perseguí-los…
Na noite alta, como sobre um muro,
As estrelinhas cantam como grilos…

O vento está dormindo na calçada,
O vento enovelou-se como um cão…
Dorme, ruazinha… Não há nada…

Só os meus passos… Mas tão leves são,
Que até parecem, pela madrugada,
Os da minha futura assombração…

CANÇÃO DO INTERIOR (Zeca Baleiro)

Feito índio na canoa/ bicho-de-pé carrapato/
tamarindo fruta boa/ picada aberta no mato/
futebol de sol a pino/ felicidade era fato/
tosse gripe passa ungüento/ saci não usa sapato/
vida de menino bento/ bento monteiro lobato/

minha arca de noé/ eram bichos nos quintais/
porco marreco cabrito/ como já não se vê mais/
jacaré fugiu do rio/ corre que lá vem zás-trás/
“to fraco” grita a galinha/ d’angola nhambus guarás/
meu quintal faria inveja/ a vinícius de moraes

domingo, 3 de outubro de 2010

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Oi Poema - Lançamento



Cristiane, Nicolas e Bic; (atrás:) Amneres, Turiba e Angélica, em foto de Eraldo Peres.

Poetas lançam sete livros em grande encontro literário e cultural. Dia 28/09, a partir de 18h, no Espaço Cultural Renato Russo, 508 Sul.

Demorou quase dois anos a gestação da Coleção OIPoema, que chega ao público no próximo dia 28, 3ª feira, no Centro de Criatividade 508 Sul. São seis livros de poetas de palavras: Luzidianas, de Angélica Torres Lima; Não vou mais lavar os pratos, de Cristiane Sobral, Poemas de um livro verde, de Bic Prado; Diário da Poesia em Combustão, de Amneres; Meiaoito de Luis Turiba; Bagaço da Laranja II, de Nicolas Behr, e junta-se ao grupo o poeta visual e gráfico Resa (Luis Eduardo Resende), com Miserere Nobis. Os livros saem com o selo da Produtora Sinhá, sob direção de Mônica Monteiro, por meio do apoio financeiro do FAC/Secretaria de Cultura do DF.

Além da ação de publicar e lançar os livros, o grupo OIPoema tomou a iniciativa de adotar escolas públicas de áreas carentes do DF, como contrapartida ao apoio recebido do Fundo de Apoio à Cultura (FAC-SECDF). Durante duas semanas de setembro, os poetas visitaram escolas de áreas carentes, doaram livros, fizeram recitais e breves conferências para os alunos. “A leitura cria a fantasia para a criança, além de ser uma forte ação social de ajuda no combate ao avanço do crack entre os nossos jovens”, afirma Luis Turiba, coordenador da coleção. Com esse princípio, os “Ois” poetas – que, aliás, atuam sem nenhum patrocínio de empresas de telefonia celular – acreditam poder fazer algo mais útil do que simplesmente doar uma cota da tiragem dos livros ao FAC, no acordo da contrapartida fixada pela Secretaria de Cultura do DF. (Divulgação OiPoema)

LANÇAMENTO DA COLEÇÃO OIPOEMA – Em 28 de setembro, terça-feira, a partir de 18h, no Espaço Cultural Renato Russo do Cento de Criatividade 508 Sul. Preço de capa unitário: R$ 20. Preço da coleção completa: R$ 70.

Coletivo de Poetas na Barca Brasília







A Barca Brasília Poética que sai do Cais da Concha Acústica, Setor de Hotéis e Turismo Norte, navegou pelo Lago Paranoá iluminada pela esplendorosa lua cheia do Planalto Central e ao sabor dos versos ditos e cantados pelo Coletivo de Poetas nos dias 25 e 26 de setembro. Participaram do sarau os poetas convidados, Basilina Pereira, José Edson dos Santos, Menezes y Morais e o músico e professor Fernando Machado. Imagens do passeio através do olhar fotográfico de Basilina Pereira.